segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Água (revisto)

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Água



nem boa, nem má

– vidro feito verbo –,

mar: apenas ri-
o,
chuva, lá-
g-
rima, la-
go-
a,

poça.
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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

nobile castello

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nobile castello



Um quarto de melancolia       
num hotel qualquer. Outros –
quatro, ou a maioria –
repletos de ausências.

Incômodos cômodos.

Por vizinhos, vozes descarnadas;
abaixo, acima e aos lados: tristezas:
às vezes, gemidos; outras, rezas.

Há escadas que não levam a estrelas
.

Elas escutam: baratas eternas.

Vejam! – para além das janelas,
Jerusalém Libertada – A Cidade verdadeira.

Por mais limpos e polidos, os espelhos,
para sempre saturados de cenas e aparências,
sonham duplos
duplos...

E enquanto fechaduras vigiam
e banheiros arquitetam suicídios,

Ao longo, corredores parem portas gêmeas e sem fim

em fim.

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segunda-feira, 19 de junho de 2017

de 5o

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de 5o




Tocaria seus lábios ressecados
feito assinasse em contato
imediato
um contrato
via tato:

apareceu, epifania,
agora resta
andares abaixo:

mais ou menos
quatro (passos?),
sua presença conhecida
e imaginada, assim, perto,
perturba a própria realidade
do concreto:

por trás de paredes,
está nua;

mas a imagem imaginada
não se compara
ao contraste da imagem
vista contra a fuligem
da rua.

Antes ao invés de luz
fosse terra, e quântica,
geodésica
(ela toda, suas curvas
as menores distâncias entre éden
e ânsia), atravessasse, vazada,
paredes como se fossem redes;

tocaria então seus lábios molhados,
não haveria interior
(não se mira o imo de
uma miragem),
mas a beleza (ímã) bastar-se-
ia
a si. 


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quarta-feira, 19 de abril de 2017

carta

...
Carta



Um excesso de sonhos
no qual se morria ou envelhecia precocemente
esgotou, a despeito da lua
que declinava em vigília sem nada
negar da sua indiferença –
de um lado a fóssil onda da Serra
do Mar; do outro, o Mar,
sêmen de serras e demais acidentes
geográficos –,
esgotou, esse excesso, os últimos grãos da areia morfina,
de modo que o sol não encenasse sua eterna estreia
no vão
de uma atmosfera
difusa, mas desse a luz a lembranças (nítidas linhas
de fuga)
e outros crepúsculos, alvoradas de
beijos primevos e semelhantes inocências arcaicas,
de espécie que se hoje não se recusa, tampouco se
recupera.

Não, não viveu em tempos de guerra,
distante, esta, em ambas as direções da seta (a do tempo):
nem ele,
nem ela,
ou seja, somando-se os dois:
a inocência
(os jovens dissolvendo-se em categorias
amargas com invejável doçura...).

Seria possível, perguntava-se o indivíduo (maduro),
não se sentir privilegiado perante as gerações que não foram
(serão) capazes
sequer de escolher entre luta e luto?

A lua havia se afogado;
o sol, ao menos até que se dissipassem as nuvens,
não.

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segunda-feira, 20 de março de 2017

Baile de Faces

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Baile de Faces



Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?
JOÃO GUIMARÃES ROSA, O Espelho.



Era uma máscara espelhada, oval,
que filtrava as toxinas do ar.
O mundo inodoro e monocolor: amarelo. Distante.
Alguns acrescentariam: insípido (silencioso).

A máscara despertou no leito onde parecia ter dormido.
Mas ela jamais dormia.
Em vez disso, todas as noites,
período em que as luzes ficavam acesas e os olhos abertos,
ela se refletia no espelho acima,
paralelo ao leito.

Levantou-se maciça,
sólida em comparação à silhueta translúcida que,
do seu ponto de vista,
era o corpo que a sustinha.

Dirigiu-se ao cômodo adjacente,
onde encontrou uma máscara idêntica a si,
do mesmo modo sustentada
por um corpo quase transparente,
quase imperceptível,
na prática raramente notado.

Sem palavra, movimentando-se lenta e meticulosamente, a primeira máscara se posicionou à frente da segunda e deu dois passos para trás, de modo que, por todo um minuto, a primeira pudesse observar-se, agora menor devido à distância, refletida no exato centro da segunda, que se refletia da mesma maneira e na mesma posição na primeira, que se refletia, menor, no centro do seu primeiro reflexo na segunda, que se refletia, menor ainda, no centro do seu primeiro reflexo na primeira, que se refletia.

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terça-feira, 14 de março de 2017

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e nós


para o Igor, filho


Compramos para ele,
somente para ele,
sempre para ele,
uma “Minha
Primeira Bíblia”.

O seu autismo é lindo,
pois torna-o ingênuo, inocente,
amoroso, preocupado – traços que,
conquanto o deixem mais frágil,
o escudam de escusas, de pedi-las
– em ambos os casos (dá-las,
esperá-las).

Compramos para ele,
conforme eu dizia
– somente para ele,
sempre para ele –,
uma “Minha
Primeira Bíblia”:

é verdade, mal escrita,
é verdade, mal resumida,
mas também é verdade que
a compramos justamente porque,
na sua inocência (em ambos
os casos – a dele, a dela),
ele acredita nela,
ela acredita nele,
e nós

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sábado, 24 de dezembro de 2016

assustadora ação à distância, ou redondilha menor pós-moderna com título em redondilhas menores clássicas: “a toda metade / poemas e histórias / a todo alfabeto / torres de babel”

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assustadora ação à distância, ou redondilha menor pós-moderna com título em redondilhas menores clássicas: “a toda metade / poemas e histórias / a todo alfabeto / torres de babel”




não basta gostar
não basta gastar
preciso é transar
em prol de manter-se
o emaranhamento
(quântico) do
relacionamento
(que se quer virtual)

mais precisamente
o
I S2 you
da
relação
(simbólica)

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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Gira (revisado)

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Última e sozinha,
girando e girando
contra o cinza das ruínas,
mais que o sol
assassinado

(ela, sol ressuscitado),
brilhava e ardia a flor hélio-
trópica,
atraindo do apocalipse,
quais planetas em torno de si,
estas palavras,
no alinhamento particular
deste sistema solar:
metaprofecia prevendo-se
e ao seu fim.



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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Gravidade

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Não a jogou.
Num gesto de delicadeza
desfez a aliança:
colocou-a no chão


cuidadosamente


como que para
respeitar a gravidade
da situação.


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quarta-feira, 20 de abril de 2016

O cumprimento da onda

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O cumprimento da onda


Onde cumes e vales revelam-se
mais que as metades de ondas:

antes na tormenta deixada à
cama pelos amantes
do que na tempestade deixada ao
mar pelos deuses:
corpos e calmarias tomados por
invisíveis intensidades (às
vezes boas-vindas, às
vezes adeuses
)

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Av.

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1

De noite ou de dia,
idas, vindas,
erradia vadia,
nu anticorpo que eu,
vírus vindo da adjacente,
vejo e adentro,
veia todavia avenida,
ainda.

2

Vai,
pega na mão tenra, pai,
atravessa no sinal
vermelho –
sente o aço da guilhotina fóssil
(talvez só o vento).

3

E se escapou o jovem,
prendeu-se o velho:
desde o parto, dentro
do corpo que escapou
para o concreto.

4

A ruavenida
é sem esquina,
mas não cíclica:
no fim do mundo
cai no abismo –

plano,
o
mundo
urbano 

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sábado, 5 de dezembro de 2015

RIP

...

RIP


A memória faz o passado parecer mais próximo
com o passar do tempo,
cada vez mais até
quando o lembrar coincide com o (ser–estar) presente:
momento em que o ato encontra o pacto
e não podemos mais dizer (ou sequer pensar
– ou sequer sentir o impacto):
parece que foi ontem.


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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Géia Hera

...

Géia/Hera


Ame-me ou mate-me, mãe,
dar à luz ou à sombra:
um só ato que o duplica
o desvão ou átimo dito vida.
Tema, assim, este mamínfero
até ao ponto de desmama-lo
antes do tempo, seu direito
materno, supremo, incluindo  
dar à treva esta tenra matéria
se julga-la um erro ou, terrosa,
digna de voltar ao que era.

Só a morte, monolítica, une;
só a morte, monótona, motiva;
só a morte, comum, move;
desfaça este Adão, Eva,
o resto estátuas em ti
tuladas vida.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

eu, espelho

...
Eu, espelho


No carro
parado,
à espera,
a espera converte
pedestres em passageiros,
presos do  espelho
retrovisor, escudo
que torna o vidente
invisível ao custo
de inverter o universo
em outro.

O espelho estranha
como o verbo rever
te a imagem, revive,
estrangeiro, revolve,
refaz conceitos, embora
não seja capaz de assistir
ao acidente assistido.

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