quarta-feira, 26 de abril de 2017

gratificação interior

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línguo
um buraco entre
um molar e o siso

sinto
como se beijasse-me,
um nada o imo

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tabuada do 7

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tabuada do 7

para a Bruna



Não nome,
brisa.

Assim
passou-me...

Lembro, não
parece que
teve sete,
teve quatorze
(numa foto em família no Quebra-
mar, muita
brisa), terá
vinte e um
dia morrerá,

filha.

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terça-feira, 25 de abril de 2017

carta II

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Carta II



Este mar no meu corpo:
eis que ao tocar a veia
a navalha é nau,

no ato
algo de ódio a agulhas
(como a canais e represas),

nessa espécie de
exame de sangue
ao rés da sarjeta
mergulho no oceano,
piso em estrelas
mortas (ditas do mar),
outrora expoentes,

enquanto à frente b-
arcos retesam horiz-
ontens: ao ocaso,
a última lembrança
se esvai – qual o sol,
da noite sou só 
outra estrela 
cadente.

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quinta-feira, 20 de abril de 2017




lembranças

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Como cinza estação para trens que partem             
e nunca retornam – levam folhas rotas                   
para algum exílio –, o outono exige da                   
visão o silêncio que o inverno pede à neve             
– um afago de flocos.                                            

Mas tudo o que vemos
são os mortos.
                                                     
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quarta-feira, 19 de abril de 2017

carta

...
Carta



Um excesso de sonhos
no qual se morria ou envelhecia precocemente
esgotou, a despeito da lua
que declinava em vigília sem nada
negar da sua indiferença –
de um lado a fóssil onda da Serra
do Mar; do outro, o Mar,
sêmen de serras e demais acidentes
geográficos –,
esgotou, esse excesso, os últimos grãos da areia morfina,
de modo que o sol não encenasse sua eterna estreia
no vão
de uma atmosfera
difusa, mas desse a luz a lembranças (nítidas linhas
de fuga)
e outros crepúsculos, alvoradas de
beijos primevos e semelhantes inocências arcaicas,
de espécie que se hoje não se recusa, tampouco se
recupera.

Não, não viveu em tempos de guerra,
distante, esta, em ambas as direções da seta (a do tempo):
nem ele,
nem ela,
ou seja, somando-se os dois:
a inocência
(os jovens dissolvendo-se em categorias
amargas com invejável doçura...).

Seria possível, perguntava-se o indivíduo (maduro),
não se sentir privilegiado perante as gerações que não foram
(serão) capazes
sequer de escolher entre luta e luto?

A lua havia se afogado;
o sol, ao menos até que se dissipassem as nuvens,
não.

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quarta-feira, 22 de março de 2017

monções

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monções



Era lembrança e culpa
a lágrima estacionada no poço da pupila:
era o erro da responsabilidade
apoiado na ilusão de liberdade.

Erro – erros se repetem (e se
multiplicam) – entrevisto
na imagem modelada
pela água empoçada:

chuva e tempestade
e copas de árvores em movimento,
seu sublime atlântico pouco
mais que a alegria de estátuas
iludidas pelo vento.

Pois pensamos e vivemos
como se a cela do enlace
não a contivesse o relance,
reflexo que informa o momento
e explode nas falhas do asfalto
(instante endurecido e negro)
o ultimato de pombos-fátuos:
fragmentam-se duas vidas na via
– a sua, a minha –  
mesmo que, tristes, se sintam
profundamente comungadas
(todo fundo é melancolia,
mesmo quando iluminado).

Mas ainda que o ato seja falho e fa(r)do
– prefacia, sumário, todo um livro
chamado profecia –, que
a lágrima surja em que-
da, propicia que seque
e suma.

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segunda-feira, 20 de março de 2017

Baile de Faces

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Baile de Faces



Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?
JOÃO GUIMARÃES ROSA, O Espelho.



Era uma máscara espelhada, oval,
que filtrava as toxinas do ar.
O mundo inodoro e monocolor: amarelo. Distante.
Alguns acrescentariam: insípido (silencioso).

A máscara despertou no leito onde parecia ter dormido.
Mas ela jamais dormia.
Em vez disso, todas as noites,
período em que as luzes ficavam acesas e os olhos abertos,
ela se refletia no espelho acima,
paralelo ao leito.

Levantou-se maciça,
sólida em comparação à silhueta translúcida que,
do seu ponto de vista,
era o corpo que a sustinha.

Dirigiu-se ao cômodo adjacente,
onde encontrou uma máscara idêntica a si,
do mesmo modo sustentada
por um corpo quase transparente,
quase imperceptível,
na prática raramente notado.

Sem palavra, movimentando-se lenta e meticulosamente, a primeira máscara se posicionou à frente da segunda e deu dois passos para trás, de modo que, por todo um minuto, a primeira pudesse observar-se, agora menor devido à distância, refletida no exato centro da segunda, que se refletia da mesma maneira e na mesma posição na primeira, que se refletia, menor, no centro do seu primeiro reflexo na segunda, que se refletia, menor ainda, no centro do seu primeiro reflexo na primeira, que se refletia.

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terça-feira, 14 de março de 2017

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derrota

para o Eugenio


Ler
contra a angústia
de pensar-se a si,
um dia,
reduzido
a esqueleto-estrutura –

os ossos: sus-
tentação para a morte,
que con-
some (com) a carne.

Descobrir,
na capa-dura
do livro querido –

         sobre o sublime
de palavras raras,
do rato, a marca:
merda
sobre Ossos de Sépia –

a derrota incerta
da estética.

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e nós


para o Igor, filho


Compramos para ele,
somente para ele,
sempre para ele,
uma “Minha
Primeira Bíblia”.

O seu autismo é lindo,
pois torna-o ingênuo, inocente,
amoroso, preocupado – traços que,
conquanto o deixem mais frágil,
o escudam de escusas, de pedi-las
– em ambos os casos (dá-las,
esperá-las).

Compramos para ele,
conforme eu dizia
– somente para ele,
sempre para ele –,
uma “Minha
Primeira Bíblia”:

é verdade, mal escrita,
é verdade, mal resumida,
mas também é verdade que
a compramos justamente porque,
na sua inocência (em ambos
os casos – a dele, a dela),
ele acredita nela,
ela acredita nele,
e nós

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sábado, 21 de janeiro de 2017

sizígia

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Amo-a, porque morrerá;
por ser móvel,
distante da estátua que seria
– fosse eterna.

Há urgência na incerteza:
logo, devo fodê-la
logo,
com a pressa de quem não se reconhece necrófilo,
mas adorador de uma deusa.

É preciso o que vai por baixo
– é preciso a caveira –
para que eu possa viver da,
e você para a,
sua beleza.

Mulher, imagem que imagina a si própria
como sonha (é sonho encarnado
– eis
sua maciez)
que o homem a imagina,

quando, na insídia,
conspira
a sizígia.
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sábado, 24 de dezembro de 2016

assustadora ação à distância, ou redondilha menor pós-moderna com título em redondilhas menores clássicas: “a toda metade / poemas e histórias / a todo alfabeto / torres de babel”

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assustadora ação à distância, ou redondilha menor pós-moderna com título em redondilhas menores clássicas: “a toda metade / poemas e histórias / a todo alfabeto / torres de babel”




não basta gostar
não basta gastar
preciso é transar
em prol de manter-se
o emaranhamento
(quântico) do
relacionamento
(que se quer virtual)

mais precisamente
o
I S2 you
da
relação
(simbólica)

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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Gira (revisado)

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Última e sozinha,
girando e girando
contra o cinza das ruínas,
mais que o sol
assassinado

(ela, sol ressuscitado),
brilhava e ardia a flor hélio-
trópica,
atraindo do apocalipse,
quais planetas em torno de si,
estas palavras,
no alinhamento particular
deste sistema solar:
metaprofecia prevendo-se
e ao seu fim.



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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Gravidade

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Não a jogou.
Num gesto de delicadeza
desfez a aliança:
colocou-a no chão


cuidadosamente


como que para
respeitar a gravidade
da situação.


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quarta-feira, 20 de abril de 2016

O cumprimento da onda

...

O cumprimento da onda


Onde cumes e vales revelam-se
mais que as metades de ondas:

antes na tormenta deixada à
cama pelos amantes
do que na tempestade deixada ao
mar pelos deuses:
corpos e calmarias tomados por
invisíveis intensidades (às
vezes boas-vindas, às
vezes adeuses
)

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Av.

... 
1

De noite ou de dia,
idas, vindas,
erradia vadia,
nu anticorpo que eu,
vírus vindo da adjacente,
vejo e adentro,
veia todavia avenida,
ainda.

2

Vai,
pega na mão tenra, pai,
atravessa no sinal
vermelho –
sente o aço da guilhotina fóssil
(talvez só o vento).

3

E se escapou o jovem,
prendeu-se o velho:
desde o parto, dentro
do corpo que escapou
para o concreto.

4

A ruavenida
é sem esquina,
mas não cíclica:
no fim do mundo
cai no abismo –

plano,
o
mundo
urbano 

... 
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