Despertar de um sonho não-REM às cinco da manhã, onirismo cibernético, o quarto envolto numa película de filme noir. Sobre a tábua ondulante das persianas, faróis elétricos cortam a noite em bifes finos sem gordura. Há um chiado de TV fora do ar na madrugada: desespera-se a chuva fria em paredes monumentais, gotas de pixels na tela da janela VGA 65 mil cores, granulosas e artificiais como um efeito digital dos anos 80. O céu não existe, a cidade é vulto, parcial - ainda que seu choro de trânsito exija, em piti desgracioso de filho da classe média, o cartoon vespertino da hora do rush. Em noites como esta há uma melancolia incontável, todo o mundo sabe disso.
Ligo o computador. Apenas uma canção de praia descolorida em tempestade, ondas feras, ruído branco no Mídia Player. Say Hello to Heaven do Temple of the Dog lembra-me o Litoral Norte numa quarta-feira de cinzas, praias, todas até Camburi, passando além da janela do chevett 83 numa vastidão motriz.
Troco o CD. Riders on the Storm incita-me lágrimas virtuais, saudades de todas as minhas meninas.
Troco o CD. We Die Young do Alice in Chains aterroriza: entrar na contra-mão da serra e morrer bem jovem e bem depressivo, antes que a porra da AIDS me leve e eu descubra que não tive tempo para me individuar e me tornar um escritor decente, porque agora aos 25, ante o fracasso ou a pura falta de gênio, invento essa de que um escritor passável tem que chegar ao menos aos 30, tempo mínimo de acúmulo de experiências e leituras; chegando aos 30, é claro, será preciso que chegue aos 35, e assim por diante em complementos de 5, no ritmo da autocomplacência.
No processador de texto, as palavras querem dar à luz o discurso ainda sem título, no trabalho que meu amigo Felipe chamou de textogonia e eu, mais para Camus do que para Hesíodo, de textoagonia. O desespero, sabe, é uma coisa; sob o escárnio de sua mirada, consulta-se até o dicionário em busca de salvação. Ao acaso, o dicionário me diz que Pinacoteca significa Museu de Pintura. De se estranhar, portanto memorável. Posso começar com essa frase: O dicionário diz que Pinacoteca significa Museu de Pintura. Ou posso começar com uma das frases “psicodélicas” dos diários de Bruna, quando a cocaína lhe incitava a autoscopia: Tomo coca, cheiro coca, vejo Cosmococas. Eu também: eu e Eu cheiramos juntos as fileiras da nossa imitação de Oiticica, iconografia: no lugar de Marylin, Pitty; e Cobain, Kurt; Lee, Rita; Pop, Iggy; Calçando Tênis da Nike, Willian (Niked Lunch :-)
O ambiente é sempre uma opção:
Casarão monumental, muros de um branco carcomido pelas traças do Atlântico,
Assim está bem.
quando pequeno eu a chamava de Museu, pois me parecia absurdo que um lugar denominado Pinacoteca abrigasse uma exposição de pinturas e não de estranha e antiga memorabilia, na imaginação composta por objetos repositórios de lembranças com firmeza ilusória de macarrão instantâneo: recorde-as por três minutos e sirva-se um prato de fatos temperados a fantasias românticas, de forma que logo a palavra não dita nos escapa com ímpeto de segredo há muito guardado, e a pessoa amada, que na verdade se foi, se nos atira aos braços em trajetória de bumerangue - movimento que os yogues chamam de karma e que o Ocidente tratou de simplificar na geodésica metafísica do castigo divino.
Ao se tratar de uma pessoa da minha geração, tais objetos ligados a lembranças significativas, itens abundantes na geografia de terrae incognitae da casa de vovô, se constituem principalmente em fitas de vídeo, fotografias, cartas, fitas K-7 e quinquilharias de feira hippie, coleções empoeiradas que os sentimentais raramente sentenciam a um exílio inanimado e escuro de porão - jamais o olhar ressecado por aquela frieza, oculta sob uma ideologia de “O trabalho liberta”, que transforma a mente no seu próprio Auschwitz; indiferença esta abundante em pessoas racionais quando distraidamente perdem seus pais e avós em casas de repouso, insensíveis quanto a estarem submetendo seus parentes a tratamento que, no caso de pessoas tão próximas do fim, equivale a bem medidas e subreptícias doses diárias de gás Zyklon.
Lembrei-me, hoje pela manhã, enquanto se faziam visíveis os primeiros revérberos de mar na minha caminhada, de uma idéia que me ocorrera em sonho (ainda não havia recordado o sonho, apenas a idéia): a felicidade jamais seria minha enquanto houvesse a memória (então recordei o sonho: eu era uma inteligência artificial e despertara sem a minha ROM: papai não havia morrido, maninha não havia morrido, eu não havia brigado com mamãe - havia-me sido concedida uma infância sem asma: sentia-me feliz, mergulhado no Letes.com).
Pois a felicidade, quando surgida da lembrança e não da realidade presente, mostra-se tão abstrata quanto sexo virtual - uma ilusão que se desfaz ao final do gozo. Numa entropia inevitável, até as boas lembranças, quando revistas, se transformam em peças de museu - na qualidade de momentos idos, fazem-se sentir como gente morta, para sempre irrecuperável. Seria esta, talvez, a definição do misterioso cheiro de velhice que persegue a terceira idade com obstinação de flatulência - a de gente que se lembra de fatos que tem a impressão de não ter vivido, mas meramente assistido como a um filme que nos faz chorar.
Tais pensamentos me conduziram da praia aos bem iluminados e frescos cômodos da Pinacoteca Benedito Calixto. Patológico, como se estivesse num labirinto, viro à esquerda, compulsivamente; encontro-a numa saleta qualquer, encaramo-nos por um breve momento.
Maria Helena...
Não me reconhece - a um chamado da amiga, passa indiferente à inspeção de um novo quadro. Ainda assim penso em me apresentar, não cometer outra vez o erro, o mais íntimo do remorso, o erro da omissão.
Maria Helena! Há quanto tempo não nos vemos? Sou eu, Fábio, do Edméia Ladevic...
Mas nada digo, apenas a observo; observo as semelhanças que compartilha com minha filha, ainda que nada encontre de específico nesta que é uma impressão distante, de certo imperceptível em local menos sóbrio do que este casarão colonial, construção vasta onde impera um vácuo de coisas mortas ou meramente desejosas de serem esquecidas.
Por entre a folhagem da minha divagação, com o entusiasmo de efebo que surpreende ninfas ao banho, reencontro as imagens das duas mulheres. Elas riem e gesticulam com intimidade, MH e a amiga de cabelos longos, negros (MH tem cabelos curtos, vermelhos). Deliciado, acompanho o percorrer intermitente e sinuoso dos dois corpos ao redor das telas, uma dança lenta e delicada, conduzida ao som de um ronronar em tons macios e secretos, sutil acasalamento de música e gestos a dar gênese, em meu íntimo, a um clima lírico-sensual que me encanta a ponto de paralisar-me não só os movimentos, mas também os pensamentos, tornando-me apto apenas ao deleite do belo como aqui se apresenta, a meio caminho entre Apolo e Dionísio, perfeito, perdido entre ato e pensamento, como o gesto do artista, preciso e intuitivo, atento ao que inspira a música das musas.
Para minha desilusão, contudo, logo noto do que realmente se trata esse distanciamento gradual e crescente que me arrebata da realidade para o mundo de Eros, essa sensação de estar diminuindo ante as ninfas e os grandes espaços que as abrigam e às pinturas antigas. Asma. Crise. Precipitado no abismo, sinto, assustado, que perco suas imagens... Maria Helena... jamais lhe pude dirigir palavra, conseguiria agora, concretizar na maturidade o sonho do primeiro amor irrealizado?
Uma idéia absurda – absurdamente romantica e inevitável, claro, só penso coisas absurdas e inevitáveis... sempre um por que não, afinal? travestido. Dir-se-ia, talvez, por causa de um consenso do que é possível ou impossível, auto-estima de “essas coisas só acontecem no cinema”? Camisas-de-força. É por isso que as pessoas ao meu redor são pequenas e alienadas num mundinho de LEGO, o qual constroem com tijolos de plástico ideológico arranjado em fileiras de Another Brick on the Wall. Eu deveria me apresentar, isso sim, mesmo ela estando gorda e envelhecida -- já não é a mesma moça encantadora e no entanto linda? desejável? apesar do buço (Mona Lisa de Duchamp), ancas grossas e braços roliços... Ah! mas o amor é cego, impressão de hormônios, bater uma, uma gozada desembaraça a visão, e aí, sem desejo -- lúcido, cara --, você vai começar a enxergar as pelancas, as estrias, as varizes
caminho na direção dela
e se estiver casada? há uma aliança nos dedos? devo agir, pode também ter um namorado, por impulso? Não há homem vigiando, não haverá mal em me apresentar, não parecerá um flerte, mais um passo, não vejo o rosto da amiga de cabelos negros - gosta de retratos? sou desenhista, até hoje guardo um perfil que fiz de você, sejam amantes (ela ruiva, sua mão de esmalte vermelho agredindo a nuca de cabelos negros), tocam-se muito - olhar de gata raivosa - ciúmes (lambe o pescoço dela, a face,) um princípio de, poderia muito bem ser que, ereção (os lábios, uma volúpia)
Parece tão familiar, ouço-a dizer a respeito de um quadro. Acho que conheci alguém assim.
Ao que a amiga responde, exagerada:
Credo! Que arrepio! Parece até déjà vu.
Não me reconheceu há instantes, agora pensa reconhecer as feições defuntas de um retrato qualquer; por certo um truque da memória ou simplesmente alguém dono de um semblante mais marcante que o meu. Também pode se tratar de uma recordação tardia, relacionada ao vislumbre que teve do meu rosto quando nos encontramos; estaria apenas erroneamente projetando o reconhecimento da minha pessoa à figura que se apresenta agora aos seus olhos. Neste caso haverá uma chance de, a uma segunda vista, ela me reconhecer; chance esta que morre nos contornos da figura do quadro agora em meu campo de visão. Não um retrato. Do local de onde eu estivera, enganara-me a moldura de um espelho. Todo o tempo MH estivera observando a si mesma.
Ora! As amigas brincavam! Enganaram-me! É claro que vendo a sua própria imagem, talvez numa referência irônica ao seu excesso de peso, Maria Helena fingiria já ter visto alguém assim - uma moça linda, esguia, de inesquecível elegância. Já meu próprio reflexo, vejo-o magro, pálido; sinto o que às vezes se sente quando a consciência recém desperta, ainda vagante em sonhos, estranha a imagem que a confronta na lâmina fria - não me reconheço; é a crise de asma, toda a vida a me fazer sentir por demais dentro de mim e fora do mundo, sem ar, sem fala, sem futebol, sem sono, sem animal-de-estimação sem bicho-de-pelúcia, solitário eu mesmo e meu corpo minúsculo sob uma pressão atmosférica a nível do mar que me comprimia, jamais me penetrava ou preenchia
Meu nome
qual o meu nome?
Afasto-me. Os retratos à óleo; datas e nomes. A bombinha. Não está no bolso.
Escritor, digo de mim para mim, sou escritor. Tenho 25 anos. Tenho asma. Sete do sete de setenta. Fiz sete anos no dia sete do mês sete de mil novecentos e setenta e sete
Sobrevém o impulso de falar, mas não há ninguém; mas se houvesse, o que eu diria? Escutar-me-iam? E no entanto eu falo, ou penso que falo, inaldível: meu nome é
não me comu
nico, as palavras d e s l i g a d a s de mim; uma impressão de despojamento, como quando se escuta o próprio nome referente a outra pessoa; Fábio! (seria esse meu nome?), e a esse chamado de mãe não respondo eu, responde um menino de boca salivante e pés sujos de areia; aquele é o Felipe; mas esse não era o; seria como que a condição mesma da minha existência e tão poucas vezes m e f a ç o e n t e n d e r
eu
havia dito Lu
te amo
num sussuro envergonhado
e corajoso
não lhe pude
compreender a reação
antes que fosse embora
porém
compreendi
que ela entendera
um apressado
tchau
no lug
ar
de
te amo
te amo--tchau
afigurou se me
um alívio
ela
não escutara
era como
se
eu não houvesse
dito
deixei-a
ir
calado
porque já não
Fábio. Meu nome é
Maria Helena
Inspiro; expiro. Recomponho. Inspiro;
Maria Helena não está aqui. Decerto não longe, na próxima sala, talvez
expiro.
Tão perto, na próxima sala... e no entanto, qualquer distância além do meu corpo um salto sideral, um intransponível metro de gestos e palavras...
Procuro por minha imagem no espelho, pergunto-me se tudo o que me resta é fitar essa carranca de amargura que me confronta obstinada; pergunto-me se só me resta degustar com masoquismo o fato de que assim que Maria Helena deixar o museu, eu jamais a reencontrarei, este que é o maior castigo do homem, a consciência da irreversibilidade das coisas acontecidas.
Sento-me numa cadeira aveludada, a careta de chupar pilha descendo-me das faces para as mãos, dez longos dedos e veias de um sangue que não compreende seu destino de loop enlouquecido, não podendo igualmente saber que a sina daqueles que alimenta também é esta - mas será, ó divindade que não sei se existe? -, repetir os mesmos erros repetir os mesmos erros ad nauseam os mesmos erros... por quê, hein, por quê?
No bolso da camisa cor-de-gelo apanho meu bloco de notas, a caneta BIC vermelha, e começo a escrever, sem pensar no motivo deste gesto, uma nota para meu romance:
encontro-a numa saleta qualquer. Fita-me o rosto, encaramo-nos por um breve momento.
Maria Helena...
Reconhece-me com um breve sorriso.