quarta-feira, 20 de abril de 2016

O cumprimento da onda

...

O cumprimento da onda


Onde cumes e vales revelam-se
mais que as metades de ondas:

antes na tormenta deixada à
cama pelos amantes
do que na tempestade deixada ao
mar pelos deuses:
corpos e calmarias tomados por
invisíveis intensidades (às
vezes boas-vindas, às
vezes adeuses
)

...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Av.

... 
1

De noite ou de dia,
idas, vindas,
erradia vadia,
nu anticorpo que eu,
vírus vindo da adjacente,
vejo e adentro,
veia todavia avenida,
ainda.

2

Vai,
pega na mão tenra, pai,
atravessa no sinal
vermelho –
sente o aço da guilhotina fóssil
(talvez só o vento).

3

E se escapou o jovem,
prendeu-se o velho:
desde o parto, dentro
do corpo que escapou
para o concreto.

4

A ruavenida
é sem esquina,
mas não cíclica:
no fim do mundo
cai no abismo –

plano,
o
mundo
urbano 

... 

sábado, 19 de dezembro de 2015

silêncio

...

Se cessa a conversa,
não segue o silêncio;
no íntimo do si
o verso começa.

Só sabe o segredo
(o mistério, o enigma:
que se leem
sempre os mesmos)
o som que, cio-
so, some somente
pensamento

(brinquedo de
esconde-esconde,
não se escuta
o silêncio).

...

sábado, 5 de dezembro de 2015

RIP

...

RIP


A memória faz o passado parecer mais próximo
com o passar do tempo,
cada vez mais até
quando o lembrar coincide com o (ser–estar) presente:
momento em que o ato encontra o pacto
e não podemos mais dizer (ou sequer pensar
– ou sequer sentir o impacto):
parece que foi ontem.


...

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Géia Hera

...

Géia/Hera


Ame-me ou mate-me, mãe,
dar à luz ou à sombra:
um só ato que o duplica
o desvão ou átimo dito vida.
Tema, assim, este mamínfero
até ao ponto de desmama-lo
antes do tempo, seu direito
materno, supremo, incluindo  
dar à treva esta tenra matéria
se julga-la um erro ou, terrosa,
digna de voltar ao que era.

Só a morte, monolítica, une;
só a morte, monótona, motiva;
só a morte, comum, move;
desfaça este Adão, Eva,
o resto estátuas em ti
tuladas vida.
...



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

eu, espelho

...
Eu, espelho


No carro
parado,
à espera,
a espera converte
pedestres em passageiros,
presos do  espelho
retrovisor, escudo
que torna o vidente
invisível ao custo
de inverter o universo
em outro.

O espelho estranha
como o verbo rever
te a imagem, revive,
estrangeiro, revolve,
refaz conceitos, embora
não seja capaz de assistir
ao acidente assistido.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

cafuné

...
cafuné



Estivemos lá
e agora estamos menos;
estaremos como se está
dentro de um trem:
parados, espectrais,
a paisagem em movimento:

praia cinza passando,
atrás, a partida,
à frente seus cabelos colados aos meus dedos
pela praia cinza ida.

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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

padaria (um segredo)

...

padaria (um segredo)


À alvorada o orvalho se esvai
na revoada de anjos – odor
de café e pão fresco. Ó, anjos
padeiros que apenas são e não
padecem, descubram-me o
paradeiro das crianças perdidas
nas noites de Carnaval, dos velhos
presos a eternas quartas-feiras de
cinzas, das sublunares meninas
que sangrarão por toda uma vida...
Ó, anjos padeiros, dividam o pão
igualmente entre os homens que
penetram mulheres na madrugada
e aqueles que penetram outros
homens, entre as mulheres que
sorvem homens na noite e aquelas
que bebem outro leite, vocês
que não veem diferenças entre
o leve e o pesado, entre o sério e o
jocoso, entre a vagina e o pênis
pois em si têm o equilíbrio do entre...
Ó, anjos por vezes odores, outras
orvalho, outras ondas, outras sêmen –
vocês que se sacrificam sombras para
que a ilusão da luz não se entre-
gue –, ao menos vocês me atendem,
ao menos vocês entendem este poeta,
ele mesmo arcanjo libidinoso e eunuco
destinado ao coito com a língua, das
asas arrancadas restando-lhe, contudo,
uma pena (da qual não é digno, entre-
tanto seja digno de), pena de morte,
talvez, de suas trombetas potentes
só um sussurro (um segredo, porém).    

...

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Blecaute, ruína e mar

,,,

Blecaute, ruína  e mar

Less than all cannot satisfy man
William Blake

1

Todas, antes, queimaram;
esta foi apagada; nunca tornou a acender.
Entretanto sua escuridão não foi a mais escura,
pois ela não soube que toda a sua geração foi a última:
a dor de acabar-se um é comum; a de acabarem-se
muitos, comum; a de acabarem-se todos, comum.

2

À noite ou de dia, penetram o corpo
da cidade de Santos sete canais;
proíbem barcos, sua água é parada.
Ruínas antes da ruína, percorre-los acalma
(como acalma percorrer estas linhas):
hábeis pescadoras, ao cabo das tormentas,
nas insalubres águas, há apenas garças,
brancas e puras almas penadas.

3

Os apocalipses são imaginados
por pessoas que morrerão
sem jamais terem visto o mar.


,,, 

terça-feira, 29 de setembro de 2015

obs.:

...

obs.:


existe essa luz sem sombra
existe essa luz sem som

uma luz alva  
e ainda
assim – obscura

dança
branca

testemunha (lábios

que se abr
em
partitura) da

guerra química de
todos os dias

(em sachês de suco em pó oculta)

... 







sábado, 19 de setembro de 2015

Três versões de "o arco-íris da gravidade"

...
Amigos, p minha surpresa, o poema "o arco-íris da gravidade" incitou dois grandes poetas, meus amigos e xarás - Diego Vinhas e Diego Callazans -, a imprimirem às imagens do poema seus próprios ritmos e palavras.

A versão do Diego Vinhas é, mais propriamente, uma variação, bem ao gosto concretista pela poesia permutacional, pois q o poeta retrabalha a ordem dos versos originais, sem lhes alterar notavelmente a feição.

Eis as três versões na ordem em q apareceram: a original, a do Diego Vinhas, q me enviou a sua momentos depois da publicação da primeira, e a do Diego Callazans. Três belezuras ;-)

o arco-íris da gravidade


daí a dor vem e te devora
no chuveiro –

a resistência, desligada

–, em pontilhismo é óleo
a gota d’água que há pouco
animou o carro e,
caída no asfalto
(perpétua onda concêntrica no lago da rua),
fechou o arco-
íris
que jamais se formou
no vapor do box,
ali, onde luz nenhuma
adentra o útero de um estio.

.......

daí a dor vem e te devora
no chuveiro –

a resistência, desligada

–, em pontilhismo é óleo
ali, onde luz nenhuma
adentra o útero de um estio,
a gota d’água que há pouco
animou o carro e,
caída no asfalto
(perpétua onda concêntrica no lago da rua),
fechou o arco-
íris
que jamais se formou
no vapor do box

.......

e vem daí a dor te devorar
na ducha - resistência desligada
- a pontilhar que nem a gota d’água
que dera alma ao carro e ora caída
- perpétua onda concêntrica - no asfalto
fechou o arco-íris que inda não,
no interior do box, foi formado
- onde nenhuma luz entrar arrisca
no vaporoso ventre de um verão.

...

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

o arco-íris da gravidade

...

daí a dor vem e te devora
no chuveiro –

a resistência, desligada

–, em pontilhismo é óleo
a gota d’água que há pouco
animou o carro e,
caída no asfalto
(perpétua onda concêntrica no lago da rua),
completou o arco-
íris
que jamais se formou
no vapor do box,
ali, onde luz nenhuma
adentra o útero de um estio.

...

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Última SP, revisado

...

janela
pia
pensamentos
suicidas
e pobreza 
(a reza
implícita)
como
pedra desbastada por ventos rasantes
sempre a navalha
sem valor
restos (e sangue)
de pele
e chuva
(são
pingos)
rosa somente
no céu e suja
de cinza e
precede o fogo
de um poente final
de tarde em São Paulo

...

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

dente

......

Entre alvas arcadas,
a mordida mostra ao mundo
a densidade dos deuses:
uma verdade da divindade
na rigidez dos dentes;

outra hora um sorriso,   
o entrever de um dente  
em momento propício,
é deus
mais que suficiente.

......
...

domingo, 26 de julho de 2015

ato contínuo

...

nada pode ser mais
intenso que o  instante
sua gravidade
seu peso
emprestando ao f
ato
sua gravidade
seu infinito
de buraco negro

o fato se faz

(não há útero
para o ato)

...

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Caitiff

...

Pressentia, de perto,
os pelos do meu peito,
todos emaranhados exceto
por um.

Da tormenta da sua respiração,
que alterava apenas sensivelmente
a pressão da atmosfera íntima,
só o desgarrado fruía
ou sofria
os tormentos.

...

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Pai nosso que estais no céu

...

OMNI
OVNI



Sobre este gostaria de notar, no interesse de auxiliar na e enriquecer a leitura, que O.V.N.I pode ser lido tanto como imagem - a do disco voador - quanto como sigla, isto é, "objeto voador não identificado", com atenção especial ao paralelo entre "objeto voador" e o título (especialmente ao predicado, "que estais no céu") e entre a imagem gerada por este - a de Deus - e o qualificativo "não identificado", o que pode sugerir o atributo de icogniscível do divino, a miríade de suas manifestações, as várias religiões, a posição cética, o dualismo mono x panteísmo, etc.

A crítica feita por muitos via os paradoxos dos atributos divinos precedidos por "omni", como o "paradoxo da pedra", segundo o qual um ser omnipotente ou todo poderoso poderia criar uma pedra que ele mesmo não pudesse levantar, pode ser lida na interpretação do poema como "objeto que está em toda parte e ainda assim não pode ser identificado".

Os ateus poderão enxergar no poema uma crítica à crença no divino.





sexta-feira, 23 de maio de 2014

ladeira

...

eu tive um sonho
e tremi
na velhice
não encontrar as bolinhas de gude
que perdi

...

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Transcriação do Canto I, de Ezra Pound

...


Amigos, segue abaixo o movimento 1, do meu poema longo antes intitulado “Caiçara”, agora “Oito Mares”. O poema começará c o movimento 8, conforme postei anteriormente, e daí seguirá em ordem arbitrária, seguidora de símbolos. Sobre o movimento 1, cabe dizer se tratar de transcriação minha do canto I dos Cantares de Ezra Pound, por sua vez uma “tradução” do Canto XI de uma tradução latina da Odisséia. Escolhi recriar os versos livres anglo-saxônicos originais em decassílabos heróicos, à maneira de Camões – em se tratando de épicos, a fonte clássica em nossa língua. O primeiro verso, um in media res, verti-o em seis sílabas.

O texto original de Ezra Pound pode ser cotejado aqui:


E os primeiros movimentos q publiquei, de Oito Mares, aqui:



E descemos à nau,                                          
Quilha à rebentação – omnimar afora –            
E firmamos o mastro, à nave a vela
Fúnebre a velar, reses embarcamos                   
Junto com nossos corpos enlutados,                
E assim o vento em popa impeliu-nos              
Com lonas plenas, às artes de Circe,                 
Corte-cerce, devido. Então sentados,                
Meia-nau, vento oprimindo leme, a toda                       
Vela varamos o mar até o fim                          
Do dia. Ido o sol a pique – sombras sobre       
O vasto oceano –, viemos dar ao chão             
Das águas mais profundas, no limiar                
Das terras cimm­erianas, de cidades                  
Povoadas encobertas por nevoeiro                   
Palmado, virgem do brilho heliônico                
Ou longa luz constelar, e, se volve                    
Da via-láctea olhar, a mais umbra noite             
Trazida sobre homens desgraçados.                 
À baixa da vazante demos ao                           
Sítio predito por Circe, local                             
Onde ambos realizaram seus rituais,                 
Euríloco e Perímedes, e, de                              
Meu flanco fina lâmina sacando,                                   
Cavei buraco cúbito; vertemos                         
Libações a um e todos os que se                                  
Foram, primeiro vinho doce, pós                                                        
Hidromel, e farinha branca de                          
Mistura à água. Então orei eu orações               
Às exangues cabeças dos cadáveres;                 
Tal qual estéreis touros dos melhores               
Imolados em Ítaca, oblações                            
Empilhadas na pira, uma só rese                                             
A Tirésias, ovelha-guia e escura.                        
Negro sangue escorreu no fosso; do                
Érebo, almas, os mortos putrefatos:                 
Jovens, noivas e velhos que penaram                
Em demasia; manchadas almas com                
Lágrimas novas, tenras virgens, muitos             
Moços passados à ponta de longas                  
Lanças brônzeas, espólio de excessiva              
Guerra; portando o aço de vermelho                
Turvado, esses e tantos outros me
Cercaram. Aos gritos, por mais bestas,
Lívido, exortei; gado massacrado,
Reses assassinadas, orei, untado
O bálsamo aos eternos – ao potente
Plutão, e louvei Prosérpina; a espada
fina desembainhada, sentei para
afastados manter os mortos em
ímpeto sem potência, até que me
fosse dado escutar Tirésias. Mas
antes apareceu Elpenor, amigo
de todos, insepulto Elpenor, ao
mundo lançado, membros que deixamos
na morada de Circe, nu e sem pranto
no sepulcro, outras lides necessárias.
Espírito abismado. Então em fala
Apressada eu gritei: “Elpenor, vieste
Como, tu, a esta costa escura dar?
Vieste a pé, excedendo aos marinheiros?”

E ele em grave discurso: “Azar e muito
Vinho. Veio-me à feiticeira morada
De Circe Hípnos. Abaixo distraído,
Na longa escadaria, bati de encontro
À pilastra, parti o crânio – a Avernus
A alma. Mas tu, meu Rei, imploro, lembrai
De mim, assim sem pranto, sem uma cova:
Empilha minhas armas, seja a tumba
À beira-mar e inscrito: malsinado homem,
E sem nome possível. E meu remo
Entre amigos usado finque acima.”

Depois chegou Anticléia, a quem repeli,
E então Tirésias, que, reconhecendo-me,
Áureo bastão nas mãos, antes falou:
“Pela segunda vez? Por quê? Rei de
Maus fados, enfrentando os sem sol
Finados e suas tristes regiões? Sai
Do fosso, para que prove do sangue
E a ti profetizar eu tenha como.”
E eu retrocedi, e ele, saciada
A sede, disse então: “Retornarás,
Odisseus, por ódioceanos Netuno
Vertidos, companheiros, todos eles,
Perdidos.” Depois do que Anticléia  
Veio. Repousa Pound, digo, Ezra Pound,
In officina Rapallo, 19xx, transcriado de Andreas Divus.
E ele velejou, por sereias e daí
Adiante e sempre até alcançar à Circe.
Venerandam, na de Creta expressão,
Com a coroa de ouro, Afrodite,
Cypri munimenta sortita est,
Alegre, orichalchi, com dourados
Cintos e faixas nos seios, tu, com pálpebras
Negras a levar o ramo de ouro
Do Argicida, de modo que: 

...
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