terça-feira, 23 de novembro de 2010

sede


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findo o choque das carnes

resta sangue e suor

ainda que rosa e brilho

nos lábios mordidos



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Cidade aTravessa 8, celebração da poesia em Sampa

Aconteceu na Casa das Rosas, Sampa, dia 19 passado: minha primeira leitura pública, para uma platéia espetacular (E. M. de Castro e Melo, um Márcio-André digitalizado [direto de Portugal via teleconferência), Victor Paes, Ronaldo Ferrito, Ademir Demarchi, Pipol, Flávio Viegas Amoreira, Fabiano Calixto...).

O evento foi belíssimo, e contou com leituras e performances interessantíssimas (destaque para a fantástica performance de Marcelo Ariel, que certamente provocou o primeiro incêndio de guarda-chuva da história da Casa das Rosas, provavelmente da Avenida Paulista, quem sabe de São Paulo...).

Se eu já estava nervoso, fiquei ainda mais quando inesperadamente Márcio-André me convocou para abrir o evento com minha leitura, que, embora curta, trancorreu sem problemas. Graças a essa participação antecipada, meu brother Pérsio, que me acompanhava, não teve tempo de operar a máquina fotográfica, o que me levou a roubar as seguintes fotos do álbum do Facebook de Edson Bueno de Camargo e do Blog Radioativo de Márcio-André:



Eu confundindo microfone com instrumento de sopro


Victo Paes invocando La Fée Vert



Márcio-Virtual-André


Platéia extraordinaire 


Performance de Marcelo Ariel, antes do incêndio


Performance de Lúcia Rosa


Leitura de Pipol


E. M. de Castro e Melo, figura simpatissíssima

sábado, 20 de novembro de 2010

pichação












cacos




cacos

caos de espelho


o fragmento fascina

pelo (p)o(u)co que contém:

aquilo que imagina

a nós

imaginando-o


cães latem

para a própria imagem


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Cidade aTravessa 8

Pessoal, Cidade aTravessa de encerramento de ano (e década), em Sampa, Casa das Rosas. Muita gente e poesia interessantes, também estarei lá, fazendo uma leitura. Quem puder, compareça!


sábado, 13 de novembro de 2010

vida loka




enquanto velhos transformam o fim em filas

mortoboys

é nóis

desmaterializam-se em atrito

incandescentes


cela-canto





poetas

peixes pré-históricos

praias remotas


à noite

luas de estátuas

gatos

olhos antigos

a antiga cidade dos telhados


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

estrondam (trecho inédito de mandrágoragonia)





estrondam

th

trovões

under

xamante

rra


rra

men

ta

rma

na tundra

ma

nadas

de

ma

                        mutes

re

tumba

m

percus(ã)o

para

sacrofício

somgue

hit

ual

áugures

tabu

a

p

onte(m)

ent(r)

em

pos


supernova






ouro

outrora estrela


outro

minério de mim

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

como navios

desejos desembocam no horizonte

mas nuvens

conhecem tudo entre o céu e a terra:

a eternidade dos gatos que desfaz infâncias…

os sonhos negros dos velhos

que consentem as cores às roupas dos jovens…

a solidão

que é cegueira e surdez

(somente casais escutam o oceano)

este meu desejo e de outros tantos:

que ela fosse eterna ou feita de alumínio


Leitura de um poema de Haroldo de Campos escrito por Márcio-André





     Neste texto eu gostaria de compartilhar uma experiência de leitura incomum. Trata-se de uma leitura do poema 1984: ano 1, era de Orwell, de Haroldo de Campos. Eis o poema:

enquanto os mortais
aceleram urânio
a borboleta
por um dia imortal
elabora seu vôo ciclâmen

     Não procurarei, por ora, as causas exatas (isto é, estilísticas, imagéticas, entre outras) desta minha experiência, mas o fato foi que, ao percorrer estas poucas linhas, tive a sensação estranhíssima de estar lendo um texto do poeta Márcio-André, e não o poema, que eu já conhecia e relera inúmeras vezes, de Haroldo de Campos.
     Mais estranho: não me pareceu este um dos melhores textos do poeta carioca. Era como se Haroldo de Campos, neste exemplo particularíssimo de sua multifária obra e estilística, tivesse previsto ou imitado a obra que apenas Márcio-André realizaria plenamente, gerações depois, ligando ao seu nome a expressão estética máxima daquele modo de fazer poético que eu descreveria, muito resumidamente e grosso modo, como a (des)construção cíclica de objetos, experiências e mundos a partir do mais peculiar e potente modo de se conjugar imagens, ideias e palavras (como coisas em si, a la Mallarmé e concretos) de que se tem notícia neste nosso início de século.
     Vejamos, a título de aproximação e exemplo para o leitor que desconhece a obra do poeta radioativo, o poema O Reflexo, extraído do livro Intradoxos:

um mar modula nuvens de metal

na areia-lâmina o homem
ghia o reflexo de uma bicicleta pelo céu

o olho-vagem de um felino
retém o escheleto de uma árvore
rachaduras em sua retina

a lua é uma pedra de carne seca
encuanto o próprio carvão não aceita aderências de luz

um ângulo mais agudo – o avesso
o lado oco da morte

     Vejamos agora, em zoom in imagético, trecho do poema Mecanismos, do mesmo livro:

a]        butter-flyes
– a lacustre-asa-jóia –
           na faca
           do capim-navalha

           vegetal-água a
           fatias de papel manteiga

b]        a borboleta reflete-se em asas

     Interessa-nos o trecho – por si só um poema completo – como um todo, mas atentemos a princípio para a preciosidade e beleza sublimes da metáfora “a lacustre-asa-jóia”; para o que eu chamaria de símile ideogrâmico, “fatias de papel manteiga”, cujo mecanismo de base seria a elipse; finalmente para o último verso, inegável pedra-de-toque, para usar um termo caro a Haroldo.
     De lado a sugestão de uma leitura comparada dos textos citados, retorno à minha estranha leitura do primeiro deles. De imediato notei que experimentava um modo de interpretação descrito por Harold Bloom em seu famoso e controverso A Angústia da Influência. Gosto muito de Bloom e me identifico com sua paixão pelas letras, mas como quase todo mundo, tenho minhas discordâncias com o bardólatra, o que não vem ao caso. Importa eu ter experimentado justamente a mais incomum e inacreditável das proporções revisionárias de sua teoria da poesia, aquela que ele denomina apophrades, ou retorno dos mortos, e explica da seguinte maneira:

A apophrades, os dias tristes ou desafortunados nos quais os mortos voltam a habitar suas antigas casas, ocorre aos poetas mais fortes, mas com os muito mais fortes dá-se um grande e final movimento revisionário, que purifica até mesmo esse último influxo… Pois todos eles conseguem um estilo que capta e curiosamente retém prioridade sobre seus precursores, de modo que se subverte a tirania do tempo, e pode-se acreditar, por momentos de pasmo, que estão sendo imitados por seus ancestrais.

     A frase “por momentos de pasmo” resume à perfeição o que senti durante esta minha leitura do poema 1984: ano 1, era de Orwell, de Márcio-André.


a máquina de subentendidos



tênis feito de chi

(made in china)

um laço

uma criança mumificada em cardaços


dominado o espaço físico

engolido o sapo da incapacidade de se explorar o espaço sideral

inventou-se o espaço virtual

sob desmedida

absolutamente dom(in)ável


subentende-se a máquina


subentende-se a miséria


subentende-se a corrupção


subentende-se a vaidade


subentende-se a ambição


subentende-se a ideia de que tudo é subentendido

subentende-se o subentendido (mesmo que) propriamente dito 


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