segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Wagner

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dedicado ao meu avô


ontem à noite
no concerto ao ar livre 
aves valquírias desencontraram guerreiros mortos
mas gritaram esplendidamente a morte
no majestoso movimento de Wagner

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domingo, 15 de dezembro de 2013

princípio da inércia

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atraversar a vi(d)a

estar na estrada

todo caminho
de mitos

ver a paisagem
que se move
(e some)
não a viagem

afinal
horizonte
sempre

longe


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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Poemas publicados na revista Celuzlose

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Amigos, comi bola: descobri q há + de 10 dias saíram poemas meus na décima edição da revista Celuzlose. Agradecimentos ao editor Victor Del Franco. Confiram no link, a revista está mto boa!

http://issuu.com/celuzlose/docs/celuzlose_10



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holovidro

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de dia, imita; à noite, some.

divindade autruísta e ausente,
sem ídolo, altar ou adoradores;

nela o amor não arde mas se vê,
a ferida não dói mas se sente;

é reta e limpa, o lixo a revela –

ela, limiar onde a realidade, gravada,
prisma-se pedra de luz ou treva.

(um avatar, a água;

outro, o ar.)

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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

estático

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na tarde de domingo
o poema desafia
o limbo:
do extático
que lhe mostre as estatísticas

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Avó

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jogado na cama
o corpo dentro da mente
doente

o dia inteiro a pedir
bananas
– grito –
e água
que lhe recuso
ao encontrar
cascas
nas gavetas

não vai morrer de sede
mas
a angústia

escrevo

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

kundalini coliforme

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os tentáculos de um polvo
possuem neurônios
a glande pensa – segundo o povo –
nosso intestino possui neurônios
contorções reviravoltas
como as do cérebro
as da cidade
as de um shopping center

no banheiro completa-se o ciclo
(emissor—mensagem—receptor):
nas manchas de Roscharch do papel higiênico
enxergamos numinosos sentidos obscenos.

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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

pequeno

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dos pés à cabeça,
da cabeça aos pés,
ao sonho o ventilador nega
a razão do dia,
enquanto ao silêncio traz
o som de sino pequeno:
a medalha pendurada a
tocar, intermitente, a parede
(as vitórias do filho revistas),
como se ao amanhecer a vida
não voltasse a ser uma linha.

... 




terça-feira, 22 de outubro de 2013

Carta de não-suicidio (Armagedom sem Bruce Willis)

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urna cinza para cinzas
cinzas:
urbe derredor
do rural em ruínas,

paraíso para tenros vitelos,
crianças e outras carniças,

a guerra química de todos os dias
acondicionada em sachês de Tang

e a morte muda,
fascista,
que não admite a voz
passiva

(rosário rosa para rosas
de plástico,
self-service eterno:
“O trabalho liberta” no fundo dos pratos).

finalmente reconheceram o suicídio
como mito (tirou a própria vida porque não pôde,
que irônico, tirar da cabeça a fotografia que tirou
da menina sudanesa que não tirou 
das garras da ave que já lhe espreitava a pele e
os tendões ressequidos).

Ao cabo, nos créditos, de nomes e cargos
só dedicatórias consolam.
Esta para o Diego:

Conceber, amigo: dar ao assassino mais uma vítima;
um sacrifício por um capricho:
"quero ter um filho?"

Esta para o Márcio:

Todo verso / um suicídio / e um renascer / em signos

E esta para o Flávio:

Na falta de um oceano, vai daqui este sumário aceno, grande abraço.
...

terça-feira, 1 de outubro de 2013

pós-escrito - transcriação de um poema de Hart Crane (versão 1.0)

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Postscript

Though now but marble are the marble urns,
Though fountain droop in waning light and pain
Glitters on the edges of wet ferns,
I should not dare to let you in again.

Mine is a world foregone though not yet ended, -
An imagined garden grey with sundered boughs
And broken branches, wistful and unmended,
And mist that is more constant than all vows.


Pós-escrito

Embora hoje só o mármore seja as urnas de mármore,
Embora a fonte caia em fraca luz e dor
reluza nas bordas de samambaias molhadas,
Eu não me atreveria a deixá-lo em rancor.

Meu é um mundo morto contudo inconcluso,
Um imaginado jardim gris em troncos quebrados,
partidos, tristes, irremediados galhos
e bruma mais una que todos os brados. 
...


...

sábado, 7 de setembro de 2013

segunda-feira, 29 de julho de 2013

"Eu atra(ve)s da câmera" aparece em seleção de poesia visual

Amigos, no ar ótima seleção de poesia visual. Meu trabalho "Eu atra(ve)s da câmera" está lá. Confiram!

issuu.com/poooooemasvisuais/docs/__________?e=8929700/4219899




sábado, 13 de julho de 2013

chama chama

...


(o) fogo
(de) novo



a partir de “Sobre a história do fogo”, de Diego Vinhas

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quinta-feira, 4 de julho de 2013

paralaxe

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quando a vejo no espelho
eu a vejo no espelho
luz
tão ela quanto
carne

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terça-feira, 2 de julho de 2013

O breve épico ferroviário de Fernando Fiorese - ensaio crítico no portal Musa Rara




Amigos,

Foi publicado hj o ensaio crítico que escrevi sobre o belíssimo livro Um dia, o trem, do poeta mineiro Fernando Fábio Fiorese Furtado. A quem interessar, eis o link:

http://www.musarara.com.br/arquivos?cat=7


odontologia caiçara

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ainda resiste
só marulho-metrônomo                            
(ondas  areia)
o que pede a imagem da vila
caiçara                 
vencida a batalha entre petroleiro e catraia
                              
                               (um poema)
na
baía-garganta
porto-estômago

morros-presa e a dentição dos prédios
sete canais
pontes inúmeras
nenhuma coroa para o arco da orla cariada



pelo Atlântico

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sábado, 22 de junho de 2013

rumo à copa - minha pequena contribuição para Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos

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registre-se em poesia
o q o povo nas ruas faz à língua:
a Copa, do inglês “cup”,
recebe a última gota e entorna:
torna a querer dizer “local de uma ksa
onde se lava a louça suja”.

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quarta-feira, 29 de maio de 2013

noite de reis no planalto


... 
à ABL, com carinho


nem a indústria
nem o presidente
têm uso para versos
e vice-versa

seu tino político equivalente
ao de um intestino doente

de certo
querem que o poeta
limpe a merda

suas higiênicas páginas imaculadas
seus versos e lustres

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segunda-feira, 27 de maio de 2013

o vendedor de (editado por Diego Vinhas)

...



da rua
o garoto diz        cândida


(não prevejo
na voz límpida
a rouquidão
ao final do dia

alguém
vende
outrem
usa

como se
o dever
de vender
produzisse
o bem                 
não bens

gerasse
venda
não vendas)


de casa
ouço      alvura
...

sexta-feira, 24 de maio de 2013

meia-luz

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para quem nudez
– estar nú –
fosse leveza de voo  
beleza de ave
vento no rosto

queda e tudo

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quarta-feira, 22 de maio de 2013

fim de expediente (editado por Diego Vinhas)

...


o fim do expediente
verte gente
no deserto irrigado  

prédios
cactos
iluminados

o trânsito escorrendo
de mais um dia de trabalho
rumo ao
bueiro dos telejornais
sono dos justos e
mais um
dia de
trabalho

como

se o chão
não fosse
a condição
da Queda

o sol
um sinal
de trânsito

neste transe
de ser só um filho distante
de Adão
esperando a parúsia
fim
de outro
expediente

algo a ver com a melancolia
de lembrar um rosto mas
não
um nome

...

domingo, 19 de maio de 2013

Wallace e Immanuel concordam quanto à natureza de Deus

...


We say God and the imagination are one . . .
How high that highest candle lights the dark.
Wallace Stevens





A consciência de estarmos permanentemente acossados por forças
superiores a nós, no plano fisico-natural, assim como a possibilidade
do colapso das representações, no plano das faculdades cognitivas (imaginação
e entendimento), constituem o momento negativo e preliminar
na experiência do sublime. Ao passo que o momento afirmativo, sem o
qual essa experiência não se completa efetivamente, enraíza-se na consciência
adquirida pelo sujeito de que, pela razão, consegue pensar o
infinito (isto é, consegue pensar o inapresentável) e consegue também
contornar, domesticar ou mesmo vencer as forças da natureza, a começar
pelo controle do próprio corpo com seus apetites desordenados. Se
a experiência do belo se dá na contemplação, diz Kant que a do sublime
se dá como movimento. O sublime é conquistado no decorrer da luta
com a negatividade. Na experiência do belo, o sujeito contempla e se
compraz com sua capacidade de produzir formas. Na do sublime, ele se
orgulha do fato de que a Idéia (produto de sua pura liberdade) supera a
Coisa (a contingência incognoscível da matéria). Resulta que o sublime
kantiano é o sentimento de prazer muito solar, muito confiante e iluminista,
ocasionado pela constatação de que o poder criador da razão
humana é tão forte que pode circunscrever pela forca da idéia as
ameaças representadas pelo Outro dessa razão - a corporal idade
animal, as catástrofes naturais, os abismos e a morte, o incomensurável
e a treva.

Kant fala numa destinação supra-sensível do espírito. Se todo
conhecimento humano passa necessariamente pelos sentidos (como se
pode ler na Crítica da Razão Pura, em concordância parcial com os
empiristas ingleses), o infinito, o todo absoluto, a força final da natureza
representam o limite do humano porque não podem ser objetivados como
fenômenos - são realidades supra-sensíveis. Mas é aí que entra a Razão,
como faculdade superior do sujeito transcendental. Ao contrário
da imaginação e do entendimento, que só funcionam a partir dos dados
por assim dizer processados pela sensibilidade, a Razão consegue estabelecer
comércio com o supra-sensível porque ela própria é supra-sensível.
A confiança de Kant é tanta que, através da conexão entre sentimento
sublime, razão e supra-sensível, ele comete a ousadia (sutis
ironias da Terceira crítica ... ) de igualar e até inverter a relação entre o
humano e o divino, praticamente colocando, já na Analítica do Sublime,
a hipótese do Deus judaico-cristão como subproduto da Razào.

(Italo Moriconi, Quatro [2+2] Notas sobre o Sublime e a Dessublimação, Revista Brasileira de Literatura Comparada n.4)

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quinta-feira, 9 de maio de 2013

cor

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Você era mais do que isso
ou sempre toda e só sorriso
que penso ter visto e agora lembrar
mas já lembrava quando pensava ver,
ter.

Só temos a memória, isto é, a tristeza
de só termos a perda.

Se somos algo, somos a perda para alguém,
o que, ao menos, é mais do que nada ser.

Por isso temos de cor um olhar, um sorriso
– um você, digo.


...

segunda-feira, 29 de abril de 2013

terceiro planeta depois do sol

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ter fé é
traduzir
ter fé é
portanto
trair

a previsão do tempo para amanhã:
mínima: apodrecer
máxima: morrer

um guitarrista solo se sente só em Nova York
a mesma
exatamente a mesma
solidão
de todos os internos de um manicômio em El Dorado

quando vc estiver uploaded no PirateBay, docinho de coco, eu juro que te acesso
enquanto isso, eu só posso te amar

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sábado, 27 de abril de 2013

00:00:00

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fim da ânsia de amantes
ante a hora marcada

a cada cômputo
mais o encontro dos ponteiros
cede aos zeros do cronômetro 

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sexta-feira, 26 de abril de 2013

o resto do dia

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só e sem sombra
some o vidente sob o sol a pino
momento em que o cego surge
para sumir da vista o resto do dia

...

desabrochar

...


bater de pétalas


...

wide shut

...



solta
ou em busca do céu
da sua boca

seus textos texturas             
na escuridão do afeto:

o beijo deve ser dado ou roubado
de olhos fechados

como o sono
                eclipse
ou a morte
                elipse

...                                              

segunda-feira, 22 de abril de 2013

voyeurismo

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imagem
que não se sabe 1) sonho
2) fantasia
ou 3) lembrança

1)
as 2)
ou as 3)
escolhas

1) hermafrodita fodendo
2) irmãos gêmeos
3) voyer (leia-se
1, 2, 3) leitor)

(obs.: o ato de observar altera o fenômeno
obs.ervado)

o princípio da incerteza
não foi com Heisenberg

...

quarta-feira, 17 de abril de 2013

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