Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crítica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de julho de 2013

O breve épico ferroviário de Fernando Fiorese - ensaio crítico no portal Musa Rara




Amigos,

Foi publicado hj o ensaio crítico que escrevi sobre o belíssimo livro Um dia, o trem, do poeta mineiro Fernando Fábio Fiorese Furtado. A quem interessar, eis o link:

http://www.musarara.com.br/arquivos?cat=7


segunda-feira, 15 de abril de 2013

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Brevíssimo elogio da literatura e do imaginário


...

As quatro dimensões da arte

A literatura está para a imaginação assim como a música está para o tempo, a arquitetura para o espaço e o entretenimento para o virtual.

Talvez não em ordem cronológica ou ontológica, mas em ordem de importância, o imaginário seria a primeira dimensão da arte, possivelmente a primeira dimensão humana; o virtual, a última – a mais desumana?

Ouro-de-tolo

É possível que o virtual derive sua pobreza, seu automatismo – seu status fantasmal –, do fato de não pertencer à ordem do dado (given), mas da ordem do criado. Como consequência ou não dessa limitação (uma limitação gnóstica ou demiúrgica; para a maioria, herética), das quatro dimensões da arte, ele seria, contra o senso comum, a mais limitada, uma vez que dá o máximo (de conteúdo) pelo mínimo (de esforço), sendo o máximo só superfície, simulacro, ou, se se preferir os irmãos Grimm a Baudrillard, ouro-de-tolo.

A superioridade indisputável da literatura

A superioridade indisputável da literatura (ou da poesia, afinal toda grande literatura, toda grande arte, é poesia) está simplesmente – não havendo nada simples nisso – no fato de ela usar, moldar e estimular no mais alto grau a dimensão do imaginário.

Argumento indisputável a favor da primazia do imaginário sobre as demais dimensões artísticas

Tente imaginar o contrário ;-)

...

terça-feira, 1 de maio de 2012

Texto crítico no Musa Rara

...

Amigos,

Saiu no portal Musa Rara meu estudo comparativo sobre as obras poéticas de Márcio-André e Haroldo de Campos. Convido todos a visitarem.

http://www.musarara.com.br/xadrez-de-influencias


quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre A Pedra Descortinada e Outros Poemas, de Pedro Du Bois

...
...


O novo livro de Pedro Du Bois acaba de ser lançado em versão online e pode ser visto em:


Trata-se de poesia de pedras-de-toque. Pedras descortinadas (dadas a ver, em diálogo explícito com Drummond). Poesia mesmo, pura arte da palavra, arte da palavra pura; sem hibridismos e novidades (experimentalismos), exceto as de sempre, aquelas que tornaram a poesia a arte por excelência, aquelas que surgem espontaneamente e surpreendem o próprio poeta; poesia que não procura deliberadamente novidades formais (poeta que não quer ser mais que poeta) – vício do modernismo concretizado pelo concretismo – e sim formar novidades usando a própria inércia significante da língua, aquela que se cria a si mesma e às suas preciosidades, usando como matéria-prima as experiências do autor, como lima o seu aparato cognitivo. Pedro parece compreender; em “interessar”, escreve: não procuro o novo/ e a novidade flutua/ ante meus olhos

Os primeiros poemas do livro não são os melhores; mas a partir de “vozes”, o livro acontece:

Sendo apenas
a voz
no discurso
incompleto

engloba verbos
                substantivados: às vozes
                                               cabem sons
                                               exemplificados

                               (não atos
                               concretados)

a voz sobre
                a aversão aos fatos


O poema como (a)versão?

A poesia, o poema, o poeta, a metalinguagem. Lê-se aqui poesia da sensibilidade; da sensibilidade poética; da sensibilidade poética x a insensibilidade do mundo (iletrado); da sensibilidade poética x a insensibilidade poética; da poesia x a contingência (Não estamos, minha senhora/ à espera do despropositado), da contingência que aparece, em “reafirmações”, desnudada, obscena (Baudrillard): primeira aparição da morte, também morte em vida:

onde permanece no pensamento
adverso de ser o nada redundante

Versos por vezes herméticos – hermetismo narcísico do eu lírico – prestam-se, devido à ambinguidade (graças às musas!), a todas as interpretações.

De volta ao verso, o mundo em versões do verso (palavra): voz, adverso, versão, diversidade, aversão, reversa, vício, vácuo, esvaziado, larva, vela.

Leitmotivs: corpo, estrada, espaço, memória (a poesia em “poesia” – ...recorrência do bailado / sobre águas passadas –, repotencialização do lugar-comum “águas passadas” na incerta superfície onde baila a consciência consciente do passado).

Pedras-de-toque comentadas, extraídas de uma primeira leitura:

a voz sobre / a aversão aos fatos

Se se interpreta aqui, além de “aversão” (poesia = nojo do cotidiano?), “a versão”, tem-se os fatos, o real, como versão; a voz, a poesia, como verdade possível.

repouso antes da viagem / na longitude programada

Metáfora-elogio da imaginação (faculdade do poético e de toda atividade humana criativa, transformadora, segundo Gilbert Durand), da fantasia, antecipação deleitável de um devir contingente que, exemplifica-se aqui, não será para o poeta de todo tormento.

(...) a estrada bloqueando a entrada.

Outra vez o que há de bom no mistério, no estar (poeticamente) ativo no mundo, a vontade de ser e ser para 
sempre contra a estase do lar, do útero (retorno ao ovário / e me aplacento).

esquecer ainda é o maior mistério

Perplexidade ante o anti-ato do esquecimento, se se está vivo (esquecimento = morte relativa).

 (...) tralhas desconsideradas: rabisco / a poeira com palavras versejadas: / poderia anotar os dias

Neste trecho de “paixão”, por conjunção de contexto e homologias de som e imagem, leia-se “poesia” no lugar de “poeira”; veja-se, para assomo de brilhantismo – do leitor, assombro –, efeito de anagramatização que transforma novamente a “poesia” no verbo do possível em conjugação atemporal-triste (futuro do pretérito): “poderia” – da poeria ao poderia, do barro ao homem, do (lugar) comum a possíveis infinitos.

(No mesmo poema, do ponto de vista dos não iniciados, poemas comparados a “tralhas desconsideradas”, coisas vãs, guardadas no “escuro vão da escada”. (Talvez) em compensação, para o poeta, o resto – a rotina – como “areia” e “atritos”.)

a casa no canto / da paisagem / introduz o elemento / humano no horizonte

Canto = “ponto ou área em que linhas e superfícies se encontram e formam ângulo” (Aurélio)? Canto = canto musical? Neste caso, a paisagem passando de objeto a sujeito, sujeito que canta e que, espantosamente, introduz animicamente o elemento humano no horizonte.


*     *     *

Em que pese o acima exposto, quero notar, especialmente para o Pedro, o uso repetitivo da contração “à (ao) ”, discutivelmente mais elegante que “para a (o)”, mas que usada à exaustão (cinco vezes num poema curto), até mesmo em lugares descabíveis (em vez de “no” e “pelo”, por exemplo), transforma um possível estilema em desagradável cacofonia de estilo, em passagens como (grifos meus):

(...) com palavras / alarmadas ao milagre (...) e refaço / a noite divulgada ao acaso

Desprezado ao sustento / despedaço o corpo à estrada (...) estraçalho a vontade ao recontar 
(...) do pássaro escalado / ao morro (...) ao sustento (...)

No final do dia / aproximado ao cansaço (...) Ausentado ao tempo


À guisa de conclusão, trata-se, como vimos, de tradicionalíssimo livro de poesia numa época interessada, quando muito, em novidades rápidas, imagéticas e estrondosas. Escrevo esta resenha crítica, como o Pedro os seus poemas, para os poucos interessados em “novidades antigas”, aquelas que já não são novidade há milênios e, ao mesmo tempo, continuam sendo.

...
...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Leitura de um poema de Haroldo de Campos escrito por Márcio-André





     Neste texto eu gostaria de compartilhar uma experiência de leitura incomum. Trata-se de uma leitura do poema 1984: ano 1, era de Orwell, de Haroldo de Campos. Eis o poema:

enquanto os mortais
aceleram urânio
a borboleta
por um dia imortal
elabora seu vôo ciclâmen

     Não procurarei, por ora, as causas exatas (isto é, estilísticas, imagéticas, entre outras) desta minha experiência, mas o fato foi que, ao percorrer estas poucas linhas, tive a sensação estranhíssima de estar lendo um texto do poeta Márcio-André, e não o poema, que eu já conhecia e relera inúmeras vezes, de Haroldo de Campos.
     Mais estranho: não me pareceu este um dos melhores textos do poeta carioca. Era como se Haroldo de Campos, neste exemplo particularíssimo de sua multifária obra e estilística, tivesse previsto ou imitado a obra que apenas Márcio-André realizaria plenamente, gerações depois, ligando ao seu nome a expressão estética máxima daquele modo de fazer poético que eu descreveria, muito resumidamente e grosso modo, como a (des)construção cíclica de objetos, experiências e mundos a partir do mais peculiar e potente modo de se conjugar imagens, ideias e palavras (como coisas em si, a la Mallarmé e concretos) de que se tem notícia neste nosso início de século.
     Vejamos, a título de aproximação e exemplo para o leitor que desconhece a obra do poeta radioativo, o poema O Reflexo, extraído do livro Intradoxos:

um mar modula nuvens de metal

na areia-lâmina o homem
ghia o reflexo de uma bicicleta pelo céu

o olho-vagem de um felino
retém o escheleto de uma árvore
rachaduras em sua retina

a lua é uma pedra de carne seca
encuanto o próprio carvão não aceita aderências de luz

um ângulo mais agudo – o avesso
o lado oco da morte

     Vejamos agora, em zoom in imagético, trecho do poema Mecanismos, do mesmo livro:

a]        butter-flyes
– a lacustre-asa-jóia –
           na faca
           do capim-navalha

           vegetal-água a
           fatias de papel manteiga

b]        a borboleta reflete-se em asas

     Interessa-nos o trecho – por si só um poema completo – como um todo, mas atentemos a princípio para a preciosidade e beleza sublimes da metáfora “a lacustre-asa-jóia”; para o que eu chamaria de símile ideogrâmico, “fatias de papel manteiga”, cujo mecanismo de base seria a elipse; finalmente para o último verso, inegável pedra-de-toque, para usar um termo caro a Haroldo.
     De lado a sugestão de uma leitura comparada dos textos citados, retorno à minha estranha leitura do primeiro deles. De imediato notei que experimentava um modo de interpretação descrito por Harold Bloom em seu famoso e controverso A Angústia da Influência. Gosto muito de Bloom e me identifico com sua paixão pelas letras, mas como quase todo mundo, tenho minhas discordâncias com o bardólatra, o que não vem ao caso. Importa eu ter experimentado justamente a mais incomum e inacreditável das proporções revisionárias de sua teoria da poesia, aquela que ele denomina apophrades, ou retorno dos mortos, e explica da seguinte maneira:

A apophrades, os dias tristes ou desafortunados nos quais os mortos voltam a habitar suas antigas casas, ocorre aos poetas mais fortes, mas com os muito mais fortes dá-se um grande e final movimento revisionário, que purifica até mesmo esse último influxo… Pois todos eles conseguem um estilo que capta e curiosamente retém prioridade sobre seus precursores, de modo que se subverte a tirania do tempo, e pode-se acreditar, por momentos de pasmo, que estão sendo imitados por seus ancestrais.

     A frase “por momentos de pasmo” resume à perfeição o que senti durante esta minha leitura do poema 1984: ano 1, era de Orwell, de Márcio-André.


Related Posts with Thumbnails