quarta-feira, 22 de março de 2017

monções

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monções



Era lembrança e culpa
a lágrima estacionada no poço da pupila:
era o erro da responsabilidade
apoiado na ilusão de liberdade.

Erro – erros se repetem (e se
multiplicam) – entrevisto
na imagem modelada
pela água empoçada:

chuva e tempestade
e copas de árvores em movimento,
seu sublime atlântico pouco
mais que a alegria de estátuas
iludidas pelo vento.

Pois pensamos e vivemos
como se a cela do enlace
não a contivesse o relance,
reflexo que informa o momento
e explode nas falhas do asfalto
(instante endurecido e negro)
o ultimato de pombos-fátuos:
fragmentam-se duas vidas na via
– a sua, a minha –  
mesmo que, tristes, se sintam
profundamente comungadas
(todo fundo é melancolia,
mesmo quando iluminado).

Mas ainda que o ato seja falho e fa(r)do
– prefacia, sumário, todo um livro
chamado profecia –, que
a lágrima surja em que-
da, propicia que seque
e suma.

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segunda-feira, 20 de março de 2017

Baile de Faces

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Baile de Faces



Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?
JOÃO GUIMARÃES ROSA, O Espelho.



Era uma máscara espelhada, oval,
que filtrava as toxinas do ar.
O mundo inodoro e monocolor: amarelo. Distante.
Alguns acrescentariam: insípido (silencioso).

A máscara despertou no leito onde parecia ter dormido.
Mas ela jamais dormia.
Em vez disso, todas as noites,
período em que as luzes ficavam acesas e os olhos abertos,
ela se refletia no espelho acima,
paralelo ao leito.

Levantou-se maciça,
sólida em comparação à silhueta translúcida que,
do seu ponto de vista,
era o corpo que a sustinha.

Dirigiu-se ao cômodo adjacente,
onde encontrou uma máscara idêntica a si,
do mesmo modo sustentada
por um corpo quase transparente,
quase imperceptível,
na prática raramente notado.

Sem palavra, movimentando-se lenta e meticulosamente, a primeira máscara se posicionou à frente da segunda e deu dois passos para trás, de modo que, por todo um minuto, a primeira pudesse observar-se, agora menor devido à distância, refletida no exato centro da segunda, que se refletia da mesma maneira e na mesma posição na primeira, que se refletia, menor, no centro do seu primeiro reflexo na segunda, que se refletia, menor ainda, no centro do seu primeiro reflexo na primeira, que se refletia.

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terça-feira, 14 de março de 2017

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derrota

para o Eugenio


Ler
contra a angústia
de pensar-se a si,
um dia,
reduzido
a esqueleto-estrutura –

os ossos: sus-
tentação para a morte,
que con-
some (com) a carne.

Descobrir,
na capa-dura
do livro querido –

         sobre o sublime
de palavras raras,
do rato, a marca:
merda
sobre Ossos de Sépia –

a derrota incerta
da estética.

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e nós


para o Igor, filho


Compramos para ele,
somente para ele,
sempre para ele,
uma “Minha
Primeira Bíblia”.

O seu autismo é lindo,
pois torna-o ingênuo, inocente,
amoroso, preocupado – traços que,
conquanto o deixem mais frágil,
o escudam de escusas, de pedi-las
– em ambos os casos (dá-las,
esperá-las).

Compramos para ele,
conforme eu dizia
– somente para ele,
sempre para ele –,
uma “Minha
Primeira Bíblia”:

é verdade, mal escrita,
é verdade, mal resumida,
mas também é verdade que
a compramos justamente porque,
na sua inocência (em ambos
os casos – a dele, a dela),
ele acredita nela,
ela acredita nele,
e nós

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