segunda-feira, 19 de junho de 2017

de 5o

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de 5o




Tocaria seus lábios ressecados
feito assinasse em contato
imediato
um contrato
via tato:

apareceu, epifania,
agora resta
andares abaixo:

mais ou menos
quatro (passos?),
sua presença conhecida
e imaginada, assim, perto,
perturba a própria realidade
do concreto:

por trás de paredes,
está nua;

mas a imagem imaginada
não se compara
ao contraste da imagem
vista contra a fuligem
da rua.

Antes ao invés de luz
fosse terra, e quântica,
geodésica
(ela toda, suas curvas
as menores distâncias entre éden
e ânsia), atravessasse, vazada,
paredes como se fossem redes;

tocaria então seus lábios molhados,
não haveria interior
(não se mira o imo de
uma miragem),
mas a beleza (ímã) bastar-se-
ia
a si. 


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quarta-feira, 19 de abril de 2017

carta

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Carta



Um excesso de sonhos
no qual se morria ou envelhecia precocemente
esgotou, a despeito da lua
que declinava em vigília sem nada
negar da sua indiferença –
de um lado a fóssil onda da Serra
do Mar; do outro, o Mar,
sêmen de serras e demais acidentes
geográficos –,
esgotou, esse excesso, os últimos grãos da areia morfina,
de modo que o sol não encenasse sua eterna estreia
no vão
de uma atmosfera
difusa, mas desse a luz a lembranças (nítidas linhas
de fuga)
e outros crepúsculos, alvoradas de
beijos primevos e semelhantes inocências arcaicas,
de espécie que se hoje não se recusa, tampouco se
recupera.

Não, não viveu em tempos de guerra,
distante, esta, em ambas as direções da seta (a do tempo):
nem ele,
nem ela,
ou seja, somando-se os dois:
a inocência
(os jovens dissolvendo-se em categorias
amargas com invejável doçura...).

Seria possível, perguntava-se o indivíduo (maduro),
não se sentir privilegiado perante as gerações que não foram
(serão) capazes
sequer de escolher entre luta e luto?

A lua havia se afogado;
o sol, ao menos até que se dissipassem as nuvens,
não.

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segunda-feira, 20 de março de 2017

Baile de Faces

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Baile de Faces



Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?
JOÃO GUIMARÃES ROSA, O Espelho.



Era uma máscara espelhada, oval,
que filtrava as toxinas do ar.
O mundo inodoro e monocolor: amarelo. Distante.
Alguns acrescentariam: insípido (silencioso).

A máscara despertou no leito onde parecia ter dormido.
Mas ela jamais dormia.
Em vez disso, todas as noites,
período em que as luzes ficavam acesas e os olhos abertos,
ela se refletia no espelho acima,
paralelo ao leito.

Levantou-se maciça,
sólida em comparação à silhueta translúcida que,
do seu ponto de vista,
era o corpo que a sustinha.

Dirigiu-se ao cômodo adjacente,
onde encontrou uma máscara idêntica a si,
do mesmo modo sustentada
por um corpo quase transparente,
quase imperceptível,
na prática raramente notado.

Sem palavra, movimentando-se lenta e meticulosamente, a primeira máscara se posicionou à frente da segunda e deu dois passos para trás, de modo que, por todo um minuto, a primeira pudesse observar-se, agora menor devido à distância, refletida no exato centro da segunda, que se refletia da mesma maneira e na mesma posição na primeira, que se refletia, menor, no centro do seu primeiro reflexo na segunda, que se refletia, menor ainda, no centro do seu primeiro reflexo na primeira, que se refletia.

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terça-feira, 14 de março de 2017

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e nós


para o Igor, filho


Compramos para ele,
somente para ele,
sempre para ele,
uma “Minha
Primeira Bíblia”.

O seu autismo é lindo,
pois torna-o ingênuo, inocente,
amoroso, preocupado – traços que,
conquanto o deixem mais frágil,
o escudam de escusas, de pedi-las
– em ambos os casos (dá-las,
esperá-las).

Compramos para ele,
conforme eu dizia
– somente para ele,
sempre para ele –,
uma “Minha
Primeira Bíblia”:

é verdade, mal escrita,
é verdade, mal resumida,
mas também é verdade que
a compramos justamente porque,
na sua inocência (em ambos
os casos – a dele, a dela),
ele acredita nela,
ela acredita nele,
e nós

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