sexta-feira, 29 de junho de 2012

quinta-feira, 28 de junho de 2012

libre

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o poeta prepara-se:
aprende com a ave  
a graça que há
na falta de gravidade;

mas reconhece:
não (ha)via uma ave de verdade
e sim uma imagem
que viraria palavras:

mera quadra mas versos livres.

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pneuma

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Sócrates & Platão
sístole & diástole
Aristót&l&s


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leito 2.0

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

leito

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                                               P

                                                           e         a
                                                    O         m
                                               L   E   I   T   O   r


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terça-feira, 26 de junho de 2012

Poetas à beira de uma crise de versos

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No ensaio curto intitulado Poetas à beira de uma crise de versos, Marcos Siscar estuda e esclarece questão fundamental para a poesia contemporânea, qual seja, a suposta dualidade verbal vs. visual, desconstruindo-a (intencionalmente implícitos aqui Michel DeGuy e Derrida) com inteligência ímpar. Conclui seu ensaio de forma brilhante, numa espécie de sincretismo teórico da obra aberta de Haroldo de Campos e Umberto Eco com o niilismo (of sorts) paradoxal de Maurice Blanchot. Não sem, no meio do caminho, presentear-nos com uma das mais lúcidas leituras de Mallarmé de que tenho notícia.

O ensaio pode ser lido na íntegra neste link.

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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Questões de tecnologia, poesia & a nossa estranha vida

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Amigos, segue trecho de uma postagem de Dirceu Villa intitulada PoesieFestival Berlin, por dentro, que pode ser encontrada na íntegra neste link. Aqui Dirceu expõe com a lucidez e profundidade habituais o problema que o abuso das novas tecnologias de comunicação pode representar para o desenvolvimento dessas mesmas características -- lucidez e profundindade -- nas novas gerações.

Timo Berger, eu, Érica Zíngano e Ricardo Aleixo (foto de Gerald Zörner, "gezett": www.gezett.de) 

No breve debate que reuniu a mim, Ricardo Aleixo e Érica Zíngano, mediados pelo poeta e tradutor alemão Timo Berger (astutamente chamado Ótimo Berger pelo meu caro Aleixo), a reportagem presente, creio que da Deutsche Welle, afirmou después que eu era totalmente arredio a tecnologia.

Talvez um neoludista, um exterminador do exterminador do futuro.

Mas a culpa, obviamente, é minha mesma. “Eu e minha grande boca”, como diz o dito.

O fato é que Berger queria saber da relação dos poetas com a vídeo-poesia, und so weiter, & eu não resisto ao aspecto anedótico do q tenho a dizer, o q acaba não resultando muito claro.

O q por outro lado é claramente interessante.

Zíngano & Aleixo, como eu mesmo disse lá, são dois dos melhores nessa arte, no Brasil; não tenho nenhum, mas nem o mais veladoparti-pris contra a coisa, sobretudo porque admiro os dois artistas citados, & um bom bando de outros, incluindo Domeneck, q nos ouvia da audiência.

Minha atitude é contra outra coisa, na verdade, e a explicação comporta duas partes.

1)  A “tecnologia” (palavra que passou a designar quase que exclusivamente produtos eletro-eletrônicos) tomou a vida das pessoas de um modo, para mim, claramente excessivo, e de um excesso que não me parece levar ao palácio da sabedoria.

A leitura em papel também traz, materialmente, os aspectos de uma experiência vicária, mas o exagero da leitura já vinha ironizado desde sempre, & de modo memorável em Das Narrenschiff (1494), ou a Nau dos Loucos, poema satírico de Sebastian Brandt, em que o primeiro dos tolos da nau é o dos livros, que está feliz em casa, cercado deles.


O tolo dos livros, na gravura ao poema de Brandt,
com as orelhas de burro cobertas pelo gorro.


É nesse sentido que as pessoas andam nas ruas falando em aparelhos celulares, ou com plugs na orelha, ouvindo coisa pré-gravada, ou jogando jogos, vão aos escritórios para trabalhar no computador, vão para casa para responder e-mail ou entrar nas redes sociais q as solicitam o tempo todo com ninharias, ou ficam diante da tv, ou jogando jogos.

Me parece óbvia a ênfase que a eletrônica tem na vida (por razões de mercado, sobretudo) transformando, em grande parte dos casos, a existência em algo vicário, vivida através de telas ou vozes que não estão no momento naquele lugar. Há um novo lugar na nau dos loucos, acho.

Isso, diria, tem apagado na arte mais recente o traço objetivo da observação direta & focalizada das coisas, capaz de diferenciar matizes de cores, ou texturas, ou associar coisas por esses & outros aspectos específicos que compõem a vida.

Ou, ao contrário, resulta em alguns momentos num hiperrealismo, q é a representação obsessivamente detalhada, incapaz de escolher um foco, perdida na superfície sem contraste das coisas para repetir q o sentido de tudo está confinado ao óbvio uso de um microscópio, ou à invasão não-afetiva, mas vulgarmente exploratória (como um abutre sobre uma carcaça) do espaço privado.

São opostos espelhados, esses. Igualmente preocupantes como esvaziamento da experiência.

2) Minha arte tem sido sobretudo a escrita também para ver até q ponto a sociedade decidiu se livrar dos meios mais, por assim dizer, “tradicionais”, de veiculação de informação estética. E é notável como de fato estamos predispostos a ser fisgados por algo chamativo, visual & auditivo, mas bem menos dispostos à travessia arenosa de um texto, sobretudo se de algum nível de complexidade q o retire da esfera comum das trocas linguísticas do dia-a-dia.

O que, deixo claro, não me impede de me meter a fazer qqer outra coisa, caso me ocorra. E eu sequer poderia bancar o anti-tecnologia (q, aliás, não sou), quando escrevo neste momento no meu notebook, prestes a postar no meu blog. Obviamente, a questão não é essa. A questão é a de uma ética dos limites, a de uma consideração filosófica das nossas opções, & de uma tentação sempre presente em mim de oferecer resistência à massificação de procedimentos q descascam ainda mais uma camada da nossa já duvidosa humanidade.

A minha impressão tem sido: estamos nos entregando a letargias mentais, estamos nos entregando sempre ao menor esforço, à impressão do imediato, sem a capacidade de conceber as coisas de longa duração & efeito, como se a dessensibilização da estética fosse também, e provavelmente sobretudo, uma dessensibilização da vida num imediatismo infantil (& na sua irmã, a repetição do mesmo), de aqui & agora suspendidos num tempo gerúndio, presente eterno, repetitivo.

E não é só o mundo eletrônico q opera isso. O surgimento do jornal, há mais ou menos quatro séculos, teria de ter posto uma questão a nossos antepassados, isto é: o quanto a compressão de informações, para nem dizer o critério de escolha delas, não distorce a nossa imagem mental do mundo com uma imensa desproporção assinalada no pressuposto de fato?

Desproporção verdadeiramente maligna, às vezes. Dirigida, muitas vezes, para o controle. Um exemplo: a coleção da violência mundial, q é minuciosamente levada diante dos nossos olhos pelos jornais diariamente (não dos meus, q parei de ler ou assistir a jornais faz 5 anos). Seria proporcional, considerando q isso cria um efeito psicológico de concentração da violência, puramente falso, incitando ao medo e, do medo, a mais violência?

E o quanto isso é proporcional, considerando q, objetivamente, a vida é composta de uma mistura mais equilibrada & caótica de coisas? E o quanto o medo não serve ao controle, uma vez q, quem teme, obedece? e o quanto a violência não serve ao dinheiro, se sabemos q qqer acidente de rua junta dezenas de pessoas em volta?

A tecnologia, como a chamam, se tornou o mercúrio por onde essas coisas deslizam sem critérios q não sejam o buyer, beware. São as telecomunicações. É a ironia de Andy Warhol, transformada em alegoria monstruosa.

Penso, de um modo resumido: o problema não é alguma inovação tecnológica ― especialmente na tecnologia de comunicação, neste nosso caso ― mas o fato de que há um claro incentivo social para o uso ininterrupto desses aparelhos, e o uso ininterrupto desses aparelhos está nos divorciando da vida, pela nossa falta de atenção à ética do uso.

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domingo, 17 de junho de 2012

a vaidade do verbo

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Segue um poema que escrevi e me envergonha, tanto por minha própria parcela de vaidade, que tento diminuir, quanto pela parcela de vaidade de muitos dos meus colegas, por vezes beirando o insuportável. Shame on us, pals


nascido indivíduo
ei-lo portando a coroa
a feita do ouro do orgulho
a das pedras preciosas
(e das atiradas contra telhados de vidro)
a da usura (Pound) e das vaidades das vaidades
(ó poetas
propagai a Obra
não vossa face!)

amadurecido em conflitos
ei-lo su-portando a coroa
a das pontas agudas
a feita de espinhos
a do altruísmo castigado pelo egoísmo
a do morto no ano 33 da Era Comum
(como Sócrates antes dEle)
a daquEle que não deixou sequer escritos
Nosso Senhor
Jesus Cristo
(ó raro poeta desprendido)

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sexta-feira, 15 de junho de 2012

teleologia erótica

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você – voz – foz
luz
e texto num córtex inominado
eletricidade
química
bela periódica

outro lado – intransponível – da
linha
as (cada vez mais) esquecidas
linhas
da expressão (cada vez menos) recordada
esteja
suposto corpo
carne
distante milhas ou pouco espaço

sabe a solidez
das coisas
a ironia do desejo?
nojo que os átomos têm
desprezo
um pelo outro

se ao menos eu pudesse sorver seu suco de seios
como sorvo a luz que a codifica frequências de ondas
para as quais pupilas são praias sob arco-íris de desejo
(onde a solidez de provas contra sua safadeza imaginada?)

Eros dos meus olhos
deus fotônico e fe(n)dido
roupas lavadas
em troca de minha vida sacrificada
três vezes por madrugada
(em pleno inverno
verificar se você ainda está coberta)

alô – amor – hélas
desejo-a o além mar dos antigos
antes inalcançável horizonte que descoberto abismo



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sexta-feira, 8 de junho de 2012

onda / wave

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               a
             onde
               a
             onda
man-                    d-
             obra
                -
               se

               m-
               ar-                      
eia                      geia


               
                w-
here                      hen
               the
                w-
ave-                      ork-
                 s-
and                         ea



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quinta-feira, 7 de junho de 2012

antimatéria

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da primeira guerra
matéria
versus
antimatéria
restamos:
aquela
mais mínimas
partes desta:
pósitrons para tomografias
alguma no centro das galáxias
e esta
poesia
versos


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segunda-feira, 4 de junho de 2012

belíssimo poema de Márcio-André, da série "poemas que poderiam ser letras de música"

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Segue um poema inédito de Márcio-André, o qual me parece de alcance universal, tanto pela natureza de seu assunto quanto pelo virtuosismo da forma, que permite a reverberação máxima desse assunto e promove vários níveis de leitura, com o que quero dizer, entre outras coisas, que há enorme complexidade formal-temática sutilmente tecida num texto superficialmente simples.

A foto, também de M-A, integra-se ao texto e merece atenção especial.



poderia ter nascido em cada cidade do mundo
com uma roupa diferente 
em uma casa diferente
e poderia ter tido
os mesmos amigos com outros nomes
e falar tudo outra vez
em diferentes línguas
e chegar àquele mesmo instante
vindo de distintas trajetórias:
há tantos
infinitos dentro do infinito
e tantos nomes para a infinita possibilidade
de ser quem se é
que o infinito não se reduz a semântica de "infinito":
por mais distantes
os lugares permanecem lá
à espera
do jeito que sempre foram
na nervura luminosa da noite
suportando em si a mecânica de se vivê-los

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