quinta-feira, 25 de outubro de 2012

AntiOccam

...


Frio por dentro,
ardor ao redor.

Belo e morno
o compromisso do possível:
além de ilusões e esperanças,
o ato realiza o contato;
entre ilusões e esperanças, 
corta 
qual aço.

...

domingo, 21 de outubro de 2012

pavão

...


sublime apocalipse
se
à omnipresença do voo
a ave visionária
não houvesse optado por 
sua omnisciência de cores 
– omnibeleza –
mas pela omnipotência dos homens

...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

a igreja das duas horas

...


Todas as madrugadas,
às duas horas,
o sino dobra

o silêncio
que se torna
solenidade, som e saudades

de um tempo
só vivido
nos livros.

Todas as madrugadas,
às quatro horas,
o sino dobra

a dor do nada
que é presença
de tudo o que não volta.

...

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

afterglow

...


Luto, leito, leite seco:
você oriente, eu ocidente;
reflexo sem luz, eco sem voz;
nada ou letes no centro.

À espera d’ aurora,
a pobreza do breu
ante a sombra d’ ausência
ao crepúsculo,
titã das planícies,
adeus de escuridão ao frágil corpúsculo.

Acre, lúgubre lágrima,
condensação do silêncio
sempre sombrio:
nada sobrou,
sequer soçobrou do naufrágio
a que não se seguiu a deriva da vida.

E que imagem dirá melhor a dor:
a que ilhas daria
nosso nauta natimorto?

Assim a sedução revela-se sedação,
o êxtase, estase,
o ainda, nada,
só afterglow, after all

...

de sua visão

...


De sua visão – de sua prisão –
vítrea
(vidro invisível, água invisível),
o peixe beta ignora a televisão vizinha;

em espelho próximo, porém,
observa-se a si próprio
e parte pra briga:

achamos graça –
rimos em família –,
voltamos ao silêncio a tempo
de assistir à missa da previsão do tempo
seguida das últimas notícias do dia –
quedas nas bolsas, chacinas –,
Dormimos o sono dos justos,
voltamos à vigília,
vamos para o serviço,
sentimo-nos seguros,
sofisticados,
informados e,
sobretudo,
bem alimentados.

...

o fim da imaginação


...

Da fotografia à imagem digital,
o fim da imaginação e da fantasia:
sonho em preto e branco (quando lembrado)
e memórias estáticas:
custa-me esforço atribuir movimento
à sua face de mármore.

Mesmo as emoções morrem
– ataque cárdia só diante de filmes e fotonovelas –,
ou brutalizam-se em razão de fuga
– escolho não atendê-la ao identificar seu número na bina.

À noite estende-se o leito para retificar espaços curvos:
promove-se o sono,
eterniza-se o tempo
ainda;

desperto, porém, relembro: sua ligação, sonho;
na vigília, eu a atenderia;
quer dizer: aos seus desejos
...

1, 2, 3, árvore do mundo

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vendaval
uma árvore (outrora fr-
eixo) caiu

crianças brincando de esconde-esconde
entre os galhos de Yggdrasil

                                   
                                  sopé do Morro do José Menino, Santos, 19/10/12

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o menino e seu barco

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barquinho a motor em rumo
gestos nervosos
no controle remoto

barquinho de papel à deriva
aceno (ao) incerto
uma despedida

...

fedor

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terreno baldio
trilhos antigos
detritos
lixo

seringas
cachimbos
camisinhas usadas
carcaças de peixe

seu fedor
a lembrança de seu fedor
a palavra fedor
futuras depurações

...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

a respiração

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se escolhas não existem
as necessidades de uma esposa
a necessidade de uma esposa
a necessidade de um poema
que desacredite o livre-arbítrio
mas não de um poeta que o conceba
sua beleza

compramos um beta
no feriado de sete de setembro
talvez uma escolha
talvez um esforço
uma decisão
a escrita destas linhas
a respiração
os batimentos do coração

... 

sábado, 1 de setembro de 2012

milagre comum

...


Milagre comum:
a despeito do nada entre átomos,
espaço onde andam lúgubres ilusões,
tristezas,
cada toque
concretiza
outrora
espectros,
certa Melancolia da Matéria,
mãe de si mesma,
sua cria
a coisa
mais linda
desse mundo.

Só o espaço passa:
as coisas que se movem no presente,
as coisas que não se movem no passado,
as coisas que passarão a se mover
a partir do movimento derradeiro de outras no futuro.

E resistimos:
comovemo-nos,
amamo-nos, ferimo-nos,
até o sofrimento é preciso
na economia da intensidade
mínima de nos pensarmos despertos,
próximos,
perto de algo,
qualquer coisa,
nem que seja apenas do fim
(acabar o privilégio do que existe).



...

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

platitude, versão com co-autoria de Pedro Du Bois

...

do contraste
entre a beleza
e o significado
da palavra

platitude

a ironia se destila
para a criação do poema

...

platitude

...


do contraste
entre a beleza
e o significado
ordinário
da palavra platitude
alguma ironia se destila
para a criação de um poema

...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

caixa preta

...

em velocidade de cruzeiro
nas altitudes da pictosfera

                              queda
para cima

sem chão contra o qual se chocar
e mesmo assim
o alívio de ter tudo salvo
dentro de uma caixa preta


...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Penélope

......
...

na con
fusão
do som do trânsito
com o som do oceano

de arranha-céus
com ciclopes

de googles
com Tirésias

de bocas de crack
com recifes de sereias

tomar IMAXs
por Ítacas

tomar GPSs
por sextantes

massacrar inocentes pretendentes
à Ultimate Movie Experience

resgatar a imagem
de Penélope

naufragar
ou seguir adiante?

.....

estilhaços

...


irrelevância
do conterrâneo
encontro
do contemporâneo
ou ânsia
do estilo
da ausência
ou estio
pós explosão
da exposição
rigor!
mortis
e estética
quer dizer
& estética
etc.

...
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