sábado, 1 de setembro de 2012

milagre comum

...


Milagre comum:
a despeito do nada entre átomos,
espaço onde andam lúgubres ilusões,
tristezas,
cada toque
concretiza
outrora
espectros,
certa Melancolia da Matéria,
mãe de si mesma,
sua cria
a coisa
mais linda
desse mundo.

Só o espaço passa:
as coisas que se movem no presente,
as coisas que não se movem no passado,
as coisas que passarão a se mover
a partir do movimento derradeiro de outras no futuro.

E resistimos:
comovemo-nos,
amamo-nos, ferimo-nos,
até o sofrimento é preciso
na economia da intensidade
mínima de nos pensarmos despertos,
próximos,
perto de algo,
qualquer coisa,
nem que seja apenas do fim
(acabar o privilégio do que existe).



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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

platitude, versão com co-autoria de Pedro Du Bois

...

do contraste
entre a beleza
e o significado
da palavra

platitude

a ironia se destila
para a criação do poema

...

platitude

...


do contraste
entre a beleza
e o significado
ordinário
da palavra platitude
alguma ironia se destila
para a criação de um poema

...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

caixa preta

...

em velocidade de cruzeiro
nas altitudes da pictosfera

                              queda
para cima

sem chão contra o qual se chocar
e mesmo assim
o alívio de ter tudo salvo
dentro de uma caixa preta


...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Penélope

......
...

na con
fusão
do som do trânsito
com o som do oceano

de arranha-céus
com ciclopes

de googles
com Tirésias

de bocas de crack
com recifes de sereias

tomar IMAXs
por Ítacas

tomar GPSs
por sextantes

massacrar inocentes pretendentes
à Ultimate Movie Experience

resgatar a imagem
de Penélope

naufragar
ou seguir adiante?

.....

estilhaços

...


irrelevância
do conterrâneo
encontro
do contemporâneo
ou ânsia
do estilo
da ausência
ou estio
pós explosão
da exposição
rigor!
mortis
e estética
quer dizer
& estética
etc.

...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

(ilu)mina(ção) terrestre

...



flesh
flash
  a
    sh


...

mísseis

...


a mísseis
– máquinas –
uma certeza
uma missão

a soldados
– humanos –
sim
e
não

...

deLete(s)

...


no omnipresente
presente
passa
o passado
o ultra
passado

que
no futur
o
rizonte
m
de e-ventos
nem mesmo será
lembrado

...

campo-santo

...



luta        por
terra      (campo
leito       lápide
luto        santo)


...

tanque

...


                  a
                  n
                  t
                  e
d  e  p  o  i  s      do tanque 

preso
                peso (na
                consciência
                estanque)

ira 
ian           que


...


...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

granada

...

para a Bruna, leitora atenta

depõe a arma o soldado 
despe a luva incontinente
(despede-se inconsciente)
para apanhar a uva

dessa árvore
porém
o cacho é de cacos

a noiva o espera

nacos


...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

entre par/entes(es)

...




♂/♀
♂_♀
♂ – ♀
♂ ; ♀
♂ : ♀
♂ , ♀
♂—♀
♂_♀@
♂ $ ♀
♂ !@#* ♀
♂ > ♀
♂ !@#* ♀
♂ < ♀
!@#*
®
!@#*
=
♂♀
♂♀+
...
♂. ♀L ♂♀L
♀. ♂♀L
...
♂♀/♂♀



...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

água-viva

...


                                                               água
                                                                          (suave
                                                                   leve vidro)
                                                                                    viva

ida e vinda
em abismos desconhecidos
leva-a
límpida
em semi-transparência
e semp-terna simetria

o fluxo laminar

auto-celebrante aceno em
que se expande e se adensa o líquido
como se expande e se adensa
tímida
a língua
na poesia

                                                                 palavra
                                                                             (suave
                                                                      leve voz)
                                                                                     viva

...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"A função da poesia", por Régis Bonvicino

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Amigos,

De todos os textos que já li tratando das questões fundamentais da poesia, indico este, de Régis Bonvicino. O título é auto-explicativo.  O texto pode ser encontrado no site pessoal do autor, neste  link.


P.S.: Dos livros de Régis Bonvicino que li e reli na íntegra, enquanto Outros Poemas e Ossos de Borboleta apresentam unidade interna e fidelidade ao projeto estético cujos delineamentos gerais se pode depreender principalmente das entrevistas de Régis e de sua fortuna crítica (destaque para os textos de Alcir Pécora e Aurora F. Bernardini), esses livros apresentam altos e baixos, em geral mais baixos do que altos, enquanto Remorso do Cosmos demonstra-se claramente um (ou o) ápice desse projeto, tratando-se de um livro excepcionalmente coeso, rigoroso, difícil e sutil, embora excessivamente tradicional em termos formais, o que não chega a ser um defeito dentro da sua proposta. Recomendo entusiasticamente esse livro, embora acredite que sua leitura e compreensão (leia-se, interpretação) ganhe em muito na comparação com os que o precederam; ficando apenas a ressalva da dificuldade: a compreensão mínima da poética de Bonvicino requer mente aberta, um conhecimento mínimo de poéticas modernas e contemporâneas, inúmeras releituras, ao que eu acrescentaria a recomendação da leitura de sua fortuna crítica.


...

naipes

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de certo ponto
vista entre duas copas
vira pirâmide
a ponta de um morro

egologia negativa:
o tudo que não se é
justifica toda e qualquer
vida

de certo ponto
vista entre dois paus
a lua desnuda-
da pelo sol a pino
do outro lado da imaginação

egologia positiva:
tudo o que se é
i. é.: tudo o que se pode ser
i. é.: tudo o que se pode ler
e o resto: nada ainda
a não ser: tudo o que se pode escrever

de incerto ponto
vista entre duas espadas
vira ao inverso a pirâmide:
a língua indecisa entre
o ouro do silêncio
e a prata da fala

...
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