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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

nekuia

...



dia elétrico
bares
ruas
esquina
putas
nome de guerra
pago
esqueço
apago

manhã desligada
claridade por toda parte
não ilumina nem rostos nem nomes nem nada na memória
descalço na calçada
na placa
nome da avenida
saída
do labirinto
via
palavra

no caminho para casa
trabalho
vida
placas
deslidas
(este labirinto tem coletivos
guias)

sensação
de suicídio
concluído

já se foi o tempo de culpas
agora (aqui) a necromancia é procurada
depois reportada sem fé
em nomes
preces
profecias
palavras


...

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

meninas

...

há violência em excesso travestida
no cheio quase
explodindo das moças púberes
redondez de seios
encarnado de lábios
abismos rosados

quem não enxerga essa perfeição
quem não enxerga essa agressividade
do belo
razão suficiente
quem não enxerga
para toda decadência
morte
genocídio
guerras

preciso é
ó meninas
deflorá-las
vermelhamente

...

domingo, 18 de setembro de 2011

Paradise City

.
.

que sua voz me arranhasse:
agulha sua garganta, vinil minha saudades –
.............só meu seu chiado                        jazz singer
..........................gorgeous whiskey breathed nigger

.........................(outros não a sonham, não a imaginam –
.........................não a vêem de olhos fechados –; outros não
.........................a amam como poetas, não a escutam como músicos).


que o mundo se tornasse preto
& branco ante a menina
dos meus olhos – lassivíssima –,
algo Sin City, sim,
algo Santos, claro,
algo São Paulo – digo, invertido:
concreto, mar e pecado – Paradise City.

.............(travessos travestis atravessam teu Cabo de Piche a nado,
..........................sabedores da sujeira,
.............cobradores de taxas obscuras por tua obscura partitura:
..........................venderam-me este poema)


...........................para quem sua voz circundasse:
.............sereia seria sua canção, projétil minha
.............mirada de – pleonasmo – marido traído;
doce seria matar ou morrer em ti e por ti

............. s   p   a   r  a   g  m   o   s 

e assim fazemos,
amém,
morrendo de medo.


..

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

transporte coletivo

..
ligado em tudo
antenado nas novas tendências
em sintonia com o meio
por dentro dos últimos acontecimentos

............boca aberta
............olhos abertos
............nariz aberto
............ouvidos abertos
.,,,,,,,,,,,pele aberta

no transporte coletivo
dúzias de cidadãos colados
todos amados

........................setudosemovenamesmavelocidadetudoestá
..............................................................................parado

.......................(nunca
.......................se chega

.......................sempre
.......................se está

.......................no mesmo
.......................lugar

...........................................[impossível te encontrar])

enquanto lembro um soneto
de William Shakespeare
alguém escuta “The Time”
na voz de Will.I.am do Black Eyed Peas

............no transporte coletivo
............dúzias de cidadãos colados
............todos armados

na tela da TV
a queda
no Oriente Médio
de um tirano
resulta num poema atlântico

............e o Mar lançou o homem sobre a Terra
............o Fogo e o Ar
............para que houvesse banhos
............de sangue
............e a Água estivesse em todo o Lugar

transporte coletivo:
dúzias de cidadãos calados
todos fuzilados

............boca aberta
............olhos abertos
............nariz aberto
............ouvidos abertos
,,,,,,,,,,,,pele aberta
...

o peixe morre pela boca

...
...
adorar memória
que permite a leitura de poemas no escuro

o homem morre por todos os motivos
poetas
quando a expectativa da criação de mundos
em versos futuros
não compensa a dor da existência
(a lembrança de antigos mundos só aprofunda a tristeza)

Hart Crane queima na minha cabeça
como Celan
e outros
tão claramente

se a poesia não mata
tampouco salva
Carlos

não sou escravo da
sou a própria
palavra
..

dois crânios

...


preciso lembrar
que o encanto do teu rubor
é sangue sob tua pele
não oceano

preciso imaginar
que te sustentam
ossos sob tuas carnes
crânio sob tua face

mas então
ridícula e tragicamente
que meu crânio poderia amar o teu
...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

poema de cabeceira

..
,,
uma criança chora na madrugada
até o décimo segundo andar
até parar
exaurida
pois o prédio permanece noite
a luz elétrica não responde
em janelas de vidro maciço

na décima segunda noite
este poeta
porém
responde
escrevendo
o que você está lendo
antes de voltar a dormir
..

sábado, 23 de julho de 2011

segunda-feira, 13 de junho de 2011

selenitas

...


mesmo antes
de Willians Anders
poetas já sabiam
que a Terra nascia
todos os dias
...

terça-feira, 24 de maio de 2011

desatino

...

Mãos
como pinturas,
possuem pele;

como esculturas,
unhas;

como textos,
linhas –
morte,
vida,

o des(a)tino
na p-
alma.
...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

pogrom

...
...

há certa necessidade hebraica
em saber que a pobreza ara pés de andarilhos
para lavra de varejeiras –
divindades de merda

o meu amor na luz redonda
do lado convexo
de uma colher de alumínio
não se tornou
inoxidável
(o seu também não se tornará)

no 8º dia
cultivadas com esmero etílico
larvas foram lançadas em abismos
de sacos de lixo –
genocídio
anjos caídos

a falta de face na lembrança dos seus traços
me fez esquecer a criação e concluir –
o o-
culto no côncavo da colher
jamais será colhido
...
...

sábado, 16 de abril de 2011

numa quarta-feira de cinzas

...
...

se não; não.
afirmou.
pensa-se muito em morrer,
quando matar é possível e não impensável;
tenho pensado mais –
por sua causa, por você, em você –
em matar que em morrer,
nos últimos tempos:

prédios altos, poços secos; 
coisas macabras: ossos e ferimentos;  

em quanto morrer é preciso
anacrônico absoluto em
tão modernos tempos de dúvidas e
relativismos;
enquanto matar –
escolha,
acidente, desígnio –
torna-se
mais do que nunca
(mais do que sempre
fora)
sinal dos tempos:

em todo caso
é relaxar e gozar;

mas o zero a zero do suicídio,
este sim é impensável:
o ser deve matar ou morrer ou ambos
em momentos distintos:
trata-se de um dever cívico.

pois a mão que mata, também dita:

sê assassino como a poesia
mata a saudade da espécie
num choro baixinho de mãe
numa quarta-feira de cinzas
...
...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

a poeira

...
....
....
...
não só povoa o raio de sol
a poeira

está sobre deus e o mundo, à beira
do abismo

onde
invisível
paira
           
muda
mônada
mortalha
...
... 

sexta-feira, 8 de abril de 2011

H de horror

...
...

nada
respera:
o neologismo-valise aglutina o excludente
paciência e vida

apressa a raça em multiplicar aniversários: caralho
mãe
eu não pedi para nascer
esperança de esgotar as datas disponíveis: porra
mãe
não marcaram no calendário o dia da sua morte

o raro horror do aviso prévio

como se na hora h
dois ou mais corpos não
(o quê então)
pudessem ocupar
o mesmo lugar
no tempo

queda
de
avião –
mesmo Chico Xavier
no filme ao menos
se apavorou e rezou

...
...

yous

...
...

você não morr-
eu
m-
eu d-
eus
tu te multiplicastes
meus deuses
(a morte divide a dádiva—
dívida da vida por infinito
)
e ao 
meu ciúmes
meus ciúmes
meu(s) lápis
questão pronome—
existencial
multiplicastes
na minha posse
minha morte
s-
em ti
s
...
... 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

o

...
...

(o)
não
é
o
fim
(,)
a
morte
(o)
não
(,)
é
o
esquecimento
 ...
...

o exterminador do futuro

...

a morte é uma questão
de ponto
de vista
(a morte dos insetos não
ocorre
como a morte –
prato principal
– dos presidentes
norte-americanos
e atrizes dos anos
30)

a morte é uma realidade
– um buquê
mas a realidade é outra
um por quê

pagamento
à vista
(de)

um golpe
de

hasta la vista,
baby
...

terça-feira, 5 de abril de 2011

os dentes

...

a coragem
necessária?
para matar a dentadas
a mulher amada
(contra-senso
mais fácil que assassinar um estrangeiro)

possível?
tirar uma vida
como se usa
um eufemismo?
com os próprios meios
como os deuses
dentes por arma?

não depois da faca
(enfraquece
acovarda)

da cárie e os de leite à palavra (escrita)
dentadura (postiça)
faltam os dentes
poesia (falada)

(pensei nisso nossas lín-
guas enroscadas
você tão calada)
...

quarta-feira, 30 de março de 2011

a palavra não

...
...

a palavra não é vidro

espelho

ou lâmpada

a palavra não é consolo

para foder a realidade
...


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