quarta-feira, 19 de abril de 2017

carta

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Carta



Um excesso de sonhos
no qual se morria ou envelhecia precocemente
esgotou, a despeito da lua
que declinava em vigília sem nada
negar da sua indiferença –
de um lado a fóssil onda da Serra
do Mar; do outro, o Mar,
sêmen de serras e demais acidentes
geográficos –,
esgotou, esse excesso, os últimos grãos da areia morfina,
de modo que o sol não encenasse sua eterna estreia
no vão
de uma atmosfera
difusa, mas desse a luz a lembranças (nítidas linhas
de fuga)
e outros crepúsculos, alvoradas de
beijos primevos e semelhantes inocências arcaicas,
de espécie que se hoje não se recusa, tampouco se
recupera.

Não, não viveu em tempos de guerra,
distante, esta, em ambas as direções da seta (a do tempo):
nem ele,
nem ela,
ou seja, somando-se os dois:
a inocência
(os jovens dissolvendo-se em categorias
amargas com invejável doçura...).

Seria possível, perguntava-se o indivíduo (maduro),
não se sentir privilegiado perante as gerações que não foram
(serão) capazes
sequer de escolher entre luta e luto?

A lua havia se afogado;
o sol, ao menos até que se dissipassem as nuvens,
não.

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segunda-feira, 20 de março de 2017

Baile de Faces

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Baile de Faces



Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível?
JOÃO GUIMARÃES ROSA, O Espelho.



Era uma máscara espelhada, oval,
que filtrava as toxinas do ar.
O mundo inodoro e monocolor: amarelo. Distante.
Alguns acrescentariam: insípido (silencioso).

A máscara despertou no leito onde parecia ter dormido.
Mas ela jamais dormia.
Em vez disso, todas as noites,
período em que as luzes ficavam acesas e os olhos abertos,
ela se refletia no espelho acima,
paralelo ao leito.

Levantou-se maciça,
sólida em comparação à silhueta translúcida que,
do seu ponto de vista,
era o corpo que a sustinha.

Dirigiu-se ao cômodo adjacente,
onde encontrou uma máscara idêntica a si,
do mesmo modo sustentada
por um corpo quase transparente,
quase imperceptível,
na prática raramente notado.

Sem palavra, movimentando-se lenta e meticulosamente, a primeira máscara se posicionou à frente da segunda e deu dois passos para trás, de modo que, por todo um minuto, a primeira pudesse observar-se, agora menor devido à distância, refletida no exato centro da segunda, que se refletia da mesma maneira e na mesma posição na primeira, que se refletia, menor, no centro do seu primeiro reflexo na segunda, que se refletia, menor ainda, no centro do seu primeiro reflexo na primeira, que se refletia.

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terça-feira, 14 de março de 2017

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e nós


para o Igor, filho


Compramos para ele,
somente para ele,
sempre para ele,
uma “Minha
Primeira Bíblia”.

O seu autismo é lindo,
pois torna-o ingênuo, inocente,
amoroso, preocupado – traços que,
conquanto o deixem mais frágil,
o escudam de escusas, de pedi-las
– em ambos os casos (dá-las,
esperá-las).

Compramos para ele,
conforme eu dizia
– somente para ele,
sempre para ele –,
uma “Minha
Primeira Bíblia”:

é verdade, mal escrita,
é verdade, mal resumida,
mas também é verdade que
a compramos justamente porque,
na sua inocência (em ambos
os casos – a dele, a dela),
ele acredita nela,
ela acredita nele,
e nós

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sábado, 24 de dezembro de 2016

assustadora ação à distância, ou redondilha menor pós-moderna com título em redondilhas menores clássicas: “a toda metade / poemas e histórias / a todo alfabeto / torres de babel”

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assustadora ação à distância, ou redondilha menor pós-moderna com título em redondilhas menores clássicas: “a toda metade / poemas e histórias / a todo alfabeto / torres de babel”




não basta gostar
não basta gastar
preciso é transar
em prol de manter-se
o emaranhamento
(quântico) do
relacionamento
(que se quer virtual)

mais precisamente
o
I S2 you
da
relação
(simbólica)

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terça-feira, 4 de outubro de 2016

Gira (revisado)

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Última e sozinha,
girando e girando
contra o cinza das ruínas,
mais que o sol
assassinado

(ela, sol ressuscitado),
brilhava e ardia a flor hélio-
trópica,
atraindo do apocalipse,
quais planetas em torno de si,
estas palavras,
no alinhamento particular
deste sistema solar:
metaprofecia prevendo-se
e ao seu fim.



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sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Gravidade

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Não a jogou.
Num gesto de delicadeza
desfez a aliança:
colocou-a no chão


cuidadosamente


como que para
respeitar a gravidade
da situação.


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quarta-feira, 20 de abril de 2016

O cumprimento da onda

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O cumprimento da onda


Onde cumes e vales revelam-se
mais que as metades de ondas:

antes na tormenta deixada à
cama pelos amantes
do que na tempestade deixada ao
mar pelos deuses:
corpos e calmarias tomados por
invisíveis intensidades (às
vezes boas-vindas, às
vezes adeuses
)

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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Av.

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1

De noite ou de dia,
idas, vindas,
erradia vadia,
nu anticorpo que eu,
vírus vindo da adjacente,
vejo e adentro,
veia todavia avenida,
ainda.

2

Vai,
pega na mão tenra, pai,
atravessa no sinal
vermelho –
sente o aço da guilhotina fóssil
(talvez só o vento).

3

E se escapou o jovem,
prendeu-se o velho:
desde o parto, dentro
do corpo que escapou
para o concreto.

4

A ruavenida
é sem esquina,
mas não cíclica:
no fim do mundo
cai no abismo –

plano,
o
mundo
urbano 

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sábado, 5 de dezembro de 2015

RIP

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RIP


A memória faz o passado parecer mais próximo
com o passar do tempo,
cada vez mais até
quando o lembrar coincide com o (ser–estar) presente:
momento em que o ato encontra o pacto
e não podemos mais dizer (ou sequer pensar
– ou sequer sentir o impacto):
parece que foi ontem.


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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Géia Hera

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Géia/Hera


Ame-me ou mate-me, mãe,
dar à luz ou à sombra:
um só ato que o duplica
o desvão ou átimo dito vida.
Tema, assim, este mamínfero
até ao ponto de desmama-lo
antes do tempo, seu direito
materno, supremo, incluindo  
dar à treva esta tenra matéria
se julga-la um erro ou, terrosa,
digna de voltar ao que era.

Só a morte, monolítica, une;
só a morte, monótona, motiva;
só a morte, comum, move;
desfaça este Adão, Eva,
o resto estátuas em ti
tuladas vida.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

eu, espelho

...
Eu, espelho


No carro
parado,
à espera,
a espera converte
pedestres em passageiros,
presos do  espelho
retrovisor, escudo
que torna o vidente
invisível ao custo
de inverter o universo
em outro.

O espelho estranha
como o verbo rever
te a imagem, revive,
estrangeiro, revolve,
refaz conceitos, embora
não seja capaz de assistir
ao acidente assistido.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

cafuné

...
cafuné



Estivemos lá
e agora estamos menos;
estaremos como se está
dentro de um trem:
parados, espectrais,
a paisagem em movimento:

praia cinza passando,
atrás, a partida,
à frente seus cabelos colados aos meus dedos
pela praia cinza ida.

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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

padaria (um segredo)

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padaria (um segredo)


À alvorada o orvalho se esvai
na revoada de anjos – odor
de café e pão fresco. Ó, anjos
padeiros que apenas são e não
padecem, descubram-me o
paradeiro das crianças perdidas
nas noites de Carnaval, dos velhos
presos a eternas quartas-feiras de
cinzas, das sublunares meninas
que sangrarão por toda uma vida...
Ó, anjos padeiros, dividam o pão
igualmente entre os homens que
penetram mulheres na madrugada
e aqueles que penetram outros
homens, entre as mulheres que
sorvem homens na noite e aquelas
que bebem outro leite, vocês
que não veem diferenças entre
o leve e o pesado, entre o sério e o
jocoso, entre a vagina e o pênis
pois em si têm o equilíbrio do entre...
Ó, anjos por vezes odores, outras
orvalho, outras ondas, outras sêmen –
vocês que se sacrificam sombras para
que a ilusão da luz não se entre-
gue –, ao menos vocês me atendem,
ao menos vocês entendem este poeta,
ele mesmo arcanjo libidinoso e eunuco
destinado ao coito com a língua, das
asas arrancadas restando-lhe, contudo,
uma pena (da qual não é digno, entre-
tanto seja digno de), pena de morte,
talvez, de suas trombetas potentes
só um sussurro (um segredo, porém).    

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terça-feira, 29 de setembro de 2015

obs.:

...

obs.:


existe essa luz sem sombra
existe essa luz sem som

há
uma luz alva  
e ainda
assim – obscura

dança
branca

testemunha (lábios

que se abr
em
partitura) da

guerra química de
todos os dias

(em sachês de suco em pó oculta)

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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Última SP, revisado

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janela
pia
pensamentos
suicidas
e pobreza 
(a reza
implícita)
como
pedra desbastada por ventos rasantes
sempre a navalha
sem valor
restos (e sangue)
de pele
e chuva
(são
pingos)
rosa somente
no céu e suja
de cinza e
precede o fogo
de um poente final
de tarde em São Paulo

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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

dente

......

Entre alvas arcadas,
a mordida mostra ao mundo
a densidade dos deuses:
uma verdade da divindade
na rigidez dos dentes;

outra hora um sorriso,   
o entrever de um dente  
em momento propício,
é deus
mais que suficiente.

......
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domingo, 26 de julho de 2015

ato contínuo

...

nada pode ser mais
intenso que o  instante
sua gravidade
seu peso
emprestando ao f
ato
sua gravidade
seu infinito
de buraco negro

o fato se faz

(não há útero
para o ato)

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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Caitiff

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Pressentia, de perto,
os pelos do meu peito,
todos emaranhados exceto
por um.

Da tormenta da sua respiração,
que alterava apenas sensivelmente
a pressão da atmosfera íntima,
só o desgarrado fruía
ou sofria
os tormentos.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Pai nosso que estais no céu

...

OMNI
OVNI



Sobre este gostaria de notar, no interesse de auxiliar na e enriquecer a leitura, que O.V.N.I pode ser lido tanto como imagem - a do disco voador - quanto como sigla, isto é, "objeto voador não identificado", com atenção especial ao paralelo entre "objeto voador" e o título (especialmente ao predicado, "que estais no céu") e entre a imagem gerada por este - a de Deus - e o qualificativo "não identificado", o que pode sugerir o atributo de icogniscível do divino, a miríade de suas manifestações, as várias religiões, a posição cética, o dualismo mono x panteísmo, etc.

A crítica feita por muitos via os paradoxos dos atributos divinos precedidos por "omni", como o "paradoxo da pedra", segundo o qual um ser omnipotente ou todo poderoso poderia criar uma pedra que ele mesmo não pudesse levantar, pode ser lida na interpretação do poema como "objeto que está em toda parte e ainda assim não pode ser identificado".

Os ateus poderão enxergar no poema uma crítica à crença no divino.





sexta-feira, 23 de maio de 2014

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